
Artigo do Cleron
Mais um Curso Rápido do Cleron, O Andarilho, para vocês!
Mary Sue — ou Gary Stu, em sua versão masculina — é um termo que aparece com frequência quando se discutem filmes, séries, animes, livros, RPGs e fanfics. Apesar disso, nem sempre ele é utilizado corretamente.
Muitas vezes, a expressão virou simplesmente sinônimo de “personagem ruim porque é perfeito demais”. Mas a questão é mais complexa. Afinal, um personagem não se torna automaticamente uma Mary Sue ou um Gary Stu apenas porque é forte, bonito, inteligente ou extremamente habilidoso.
Para entender o problema, precisamos voltar à origem do termo e analisar quais características fazem com que determinados personagens sejam vistos dessa maneira.
A origem da Mary Sue
A origem do termo remonta às fanfics de Star Trek dos anos 1970.
Em 1973, Paula Smith escreveu uma pequena paródia chamada A Trekkie’s Tale, publicada em 1974 na fanzine Menagerie. A protagonista era a Tenente Mary Sue, uma garota de apenas 15 anos e meio que reunia praticamente todas as qualidades imagináveis.
Ela era linda, genial, tocava harpa, curava feridos com um toque, conquistava o Capitão Kirk praticamente apenas por existir, resolvia crises da Enterprise em poucos minutos e ainda morria heroicamente no final, fazendo Spock chorar e Kirk declarar que nunca mais seria o mesmo.
A história era uma sátira das personagens idealizadas e das auto-inserções perfeitas que apareciam em determinadas histórias feitas por fãs.
Paula Smith utilizou “Mary Sue” justamente para ironizar esse tipo de personagem exageradamente idealizado.
Com o tempo, Mary Sue se tornou o termo genérico utilizado para personagens femininas com essas características. Para personagens masculinos, surgiram equivalentes como Gary Stu, Marty Stu e Larry Stu.
O que realmente define uma Mary Sue ou um Gary Stu?
O problema não está simplesmente em o personagem ser poderoso, bonito ou talentoso.
Batman, Geralt de Rívia, Galadriel, Sailor Moon e Aragorn, por exemplo, são personagens extremamente capazes ou poderosos. Ainda assim, enfrentam falhas, dificuldades, consequências e processos de crescimento.
Uma Mary Sue ou um Gary Stu costuma apresentar uma combinação diferente de características.
Perfeição sem esforço
O personagem aprende habilidades extremamente complexas em minutos ou dias, sem que exista treinamento ou desenvolvimento proporcional às capacidades conquistadas.
Não é o poder em si que causa o problema, mas a ausência de um caminho convincente para alcançá-lo.
Falta de falhas reais
Quando existem defeitos, eles frequentemente são superficiais ou transformados em qualidades.
É aquele tipo de personagem cujo suposto defeito seria algo como: “sou atrapalhada, mas isso me torna ainda mais charmosa”.
Em outros casos, praticamente não existem limitações significativas.
O universo conspira a favor do personagem
Todos elogiam o protagonista, apaixonam-se por ele ou parecem perder inteligência e competência quando estão ao seu redor.
O roteiro começa a forçar situações para garantir que o personagem esteja sempre certo ou consiga vencer.
O chamado deus ex machina passa a aparecer repetidamente para resolver obstáculos que deveriam representar desafios reais.
Não existem consequências duradouras
O personagem pode cometer erros, mas dificilmente esses erros provocam consequências verdadeiramente significativas.
Mesmo quando alguma decisão parece equivocada, o próprio universo da história encontra uma maneira de transformar aquele “erro” em acerto.
Os outros personagens existem apenas para destacar o protagonista
Outro sinal aparece quando personagens secundários anteriormente competentes precisam ser enfraquecidos — ou “nerfados” — para que o protagonista pareça ainda mais extraordinário.
Em vez de possuírem seus próprios arcos, capacidades e conflitos, os coadjuvantes passam a funcionar principalmente como instrumentos para dizer, direta ou indiretamente:
“Uau, como você é incrível!”
Exemplos modernos frequentemente apontados
Alguns personagens de grandes franquias são frequentemente citados em discussões sobre Mary Sues e Gary Stus.
É importante observar que essa classificação faz parte da interpretação crítica sobre essas obras e personagens.
Rey — Star Wars
Rey, da trilogia sequência de Star Wars, é frequentemente citada nesse debate.
Entre as críticas apresentadas estão sua capacidade de aprender aspectos da Força rapidamente, sua habilidade com o sabre de luz sem um período extenso de treinamento e sua vitória sobre Kylo Ren, que possuía treinamento anterior.
Também é mencionada a cena após a morte de Han Solo, quando Leia abraça Rey apesar de as duas ainda possuírem pouca convivência.
Para os críticos da personagem, esses elementos fazem parecer que o universo narrativo gira em torno de sua importância como uma espécie de “escolhida perfeita”.
Capitã Marvel — MCU
A Capitã Marvel também aparece com frequência nesse tipo de discussão.
A personagem é extremamente poderosa desde sua introdução e possui poucas fraquezas capazes de representar obstáculos físicos significativos.
Uma crítica recorrente é que seu arco apresenta pouco crescimento relacionado às próprias capacidades, enquanto vários conflitos podem ser solucionados com relativa facilidade por causa de seu enorme nível de poder.
Outros casos
Também aparecem nessas discussões algumas princesas recentes da Disney, determinadas interpretações de Galadriel em The Rings of Power e protagonistas de histórias isekai que rapidamente se tornam os seres mais fortes de seus respectivos mundos.
E os Gary Stus?
O fenômeno não é exclusivo de personagens femininas.
Os Gary Stus aparecem com bastante frequência em diferentes gêneros.
Jake Sully, de Avatar, por exemplo, é apontado por alguns críticos por sua ascensão rápida dentro daquela sociedade e pela discussão relacionada ao arquétipo conhecido como white savior.
Amadeus Cho, da Marvel, também é citado: apresentado como uma das pessoas mais inteligentes do mundo, torna-se Hulk e combina enorme força física com uma inteligência excepcional.
Além deles, inúmeros protagonistas de fanfics e RPGs acabam seguindo a fórmula do personagem que é simultaneamente “o mais forte, o mais bonito e o mais correto em tudo”.
Por que personagens assim podem prejudicar uma história?
Quando um personagem parece perfeito demais, o conflito pode perder força.
Se o público acredita que o protagonista sempre vencerá, sempre estará correto e nunca sofrerá consequências significativas, parte da tensão narrativa desaparece.
A história pode se tornar previsível e excessivamente indulgente com o próprio protagonista.
O espectador deixa de sentir que existe risco real.
E, sem risco, também pode faltar crescimento.
Parte do interesse por um personagem está justamente em acompanhar alguém enfrentando dificuldades, cometendo erros, sofrendo consequências, aprendendo e mudando.
Quando tudo é conquistado facilmente, esse processo desaparece.
Quando a fantasia de poder domina a narrativa
Em muitos casos, Mary Sues e Gary Stus podem funcionar como uma espécie de fantasia de poder do próprio autor.
O escritor se insere — diretamente ou por meio de uma projeção — em um personagem idealizado: poderoso, admirado, desejado e constantemente correto.
O mundo fictício começa, então, a se curvar ao protagonista.
Ele sempre possui a resposta certa, é mais poderoso do que os demais e pode acabar funcionando como porta-voz da ideologia ou visão política do autor, apresentada dentro da narrativa como se fosse automaticamente a posição correta.
O problema não está necessariamente na existência de ideias políticas ou ideológicas em uma obra. Histórias sempre podem discutir valores, sociedade, moralidade e política.
A questão surge quando o roteiro deixa de construir conflitos e personagens convincentes para simplesmente confirmar tudo o que o protagonista pensa.
Em produções modernas da Marvel, Disney e Star Wars, o termo Mary Sue também aparece em críticas relacionadas àquilo que alguns espectadores interpretam como “representatividade perfeita” ou preguiça de roteiro, quando o desenvolvimento narrativo seria sacrificado para tornar determinado personagem praticamente incontestável.
A diferença para um herói poderoso bem escrito
Ter grande poder não transforma automaticamente alguém em Mary Sue ou Gary Stu.
O ponto fundamental está na existência de conflitos, limitações, consequências e crescimento.
Superman
Superman é um dos personagens mais poderosos da cultura pop.
Mesmo assim, suas melhores histórias não dependem apenas de descobrir se alguém consegue derrotá-lo fisicamente.
Ele enfrenta dilemas morais, conflitos emocionais e situações nas quais seu enorme poder não fornece uma solução simples.
Além disso, falhar pode produzir consequências graves.
Mulher-Maravilha
A Mulher-Maravilha clássica também é extremamente poderosa, mas suas histórias incluem perdas e conflitos significativos.
A morte de Steve Trevor em diferentes versões, por exemplo, representa uma dessas experiências capazes de gerar consequências emocionais reais para a personagem.
Goku
Goku possui poderes extraordinários, porém sua trajetória é marcada pelo treinamento.
Ele constantemente precisa melhorar.
Nem sempre vence seus adversários no primeiro confronto e, em diversos momentos, precisa reconhecer suas próprias limitações antes de superar um novo desafio.
Seu poder é associado ao esforço, às derrotas e ao crescimento.
Sailor Moon
Sailor Moon possui poderes gigantescos, mas apresenta grandes fragilidades emocionais.
Ela vive sentimentos conflitantes e prefere, quando possível, evitar matar seus inimigos.
Essa característica, longe de simplesmente torná-la perfeita, cria conflitos internos e dilemas dentro da própria narrativa.
Evite a fantasia de poder preguiçosa
Mary Sue e Gary Stu não significam simplesmente “personagem poderoso”.
O verdadeiro problema aparece quando o poder deixa de possuir contrapesos narrativos.
Um protagonista pode ser extremamente forte, genial ou excepcional. Entretanto, para que sua jornada seja interessante, normalmente é necessário que existam obstáculos capazes de colocá-lo à prova.
Poder sem desafio pode eliminar o conflito.
Perfeição sem falhas pode eliminar a identificação.
Vitórias sem consequências podem eliminar a tensão.
Seja em RPGs, fanfics ou produções profissionais, o equilíbrio continua sendo essencial:
poder + falhas reais + consequências + crescimento genuíno.
Personagens marcantes não precisam ser fracos. Eles precisam ser colocados diante de situações em que suas forças não resolvam absolutamente tudo e em que suas decisões tenham peso dentro da história.
No fim, talvez essa seja a maior diferença entre um personagem extraordinário e uma Mary Sue ou um Gary Stu: não o tamanho de seu poder, mas o preço, os conflitos e o crescimento que acompanham esse poder.
E você? Qual foi o pior exemplo de Mary Sue ou Gary Stu que já viu em um filme, série ou anime? Conte nos comentários!
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Assista ao vídeo completo:
https://www.youtube.com/watch?v=qCD1uHut8VY
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