
Vida de Valney
“Como pode você ser negro, pobre, favelado e ser de direita?”
Essa foi uma pergunta que ouvi de um primo e que, de certa forma, representa uma visão ainda presente em parte da sociedade.
Minha resposta é simples: isso se chama liberdade de escolha.
A minha cor de pele não determina minha ideologia. O lugar onde nasci não determina minhas convicções. Minha condição econômica não determina em quem devo votar. Ser negro, pobre ou morador de favela não significa que eu tenha a obrigação de pensar politicamente de uma determinada maneira.
Antes de escolher um lado político, acredito que devemos analisar ideias, propostas, princípios, valores, histórico e, principalmente, o caráter daqueles que pretendem nos representar.
Não quero viver preso a uma espécie de “escravidão ideológica”, na qual alguém determina o que devo pensar simplesmente por causa da minha raça ou da minha condição social.
O que eu quero é muito mais simples: uma vida digna.
Quero poder viver longe da violência — seja ela física, criminal, política, econômica ou social. Quero trabalhar com honestidade e honra. Quero ter condições de empreender, crescer profissionalmente e construir meu próprio caminho. Quero que minha família seja a base da minha vida e desejo preservar os ensinamentos cristãos que considero importantes para a formação de uma sociedade pautada pela responsabilidade, pelo respeito e por valores.
Isso não significa que eu considere pessoas que pensam diferente de mim ruins. Significa apenas que, depois de analisar diferentes ideias políticas, fiz minhas próprias escolhas.
Minha referência também é a Bíblia
Como cristão, considero a Bíblia uma referência fundamental para compreender princípios de vida, responsabilidade, justiça e liderança.
No livro de Êxodo, por exemplo, encontramos a orientação de Jetro a Moisés sobre a escolha de homens para ajudá-lo na condução do povo. A orientação destaca características como capacidade, temor a Deus, honestidade e rejeição à corrupção e à avareza.
Essa passagem me faz refletir sobre como a escolha de um líder não deveria ser baseada simplesmente em emoção, paixão política, propaganda ou discursos bonitos.
Para mim, existem pelo menos quatro princípios importantes.
Não votar apenas por sentimentos
Não devemos escolher alguém simplesmente porque gostamos de sua personalidade, porque ele fala aquilo que queremos ouvir ou porque pertence ao grupo político com o qual nos identificamos.
Observar o caráter
A capacidade de governar é importante, mas também considero fundamental avaliar honestidade, responsabilidade, princípios e compromisso com aquilo que a pessoa afirma defender.
Conhecer o histórico, e não apenas o discurso
Qualquer político pode fazer um discurso bonito. O passado, porém, ajuda a revelar como essa pessoa se comportou quando precisou tomar decisões.
Avaliar a capacidade de resolver problemas
Governar não é apenas fazer discursos ou criar inimigos. É enfrentar problemas complexos, tomar decisões difíceis e buscar soluções com responsabilidade e sabedoria.
Ser negro não significa pensar politicamente de uma única maneira
Existe uma ideia que considero equivocada: a de que uma pessoa negra, pelo simples fato de ser negra, necessariamente deveria estar à esquerda.
Mas por quê?
A cor da pele faz parte da nossa identidade, mas não determina automaticamente nossas convicções políticas.
Existem negros de esquerda, negros de direita, negros liberais, negros conservadores, negros socialistas, negros que não gostam de política e negros que simplesmente não se identificam com nenhum desses rótulos.
A população negra não é um bloco político uniforme.
Por isso, quando alguém pergunta:
“Como você pode ser negro e de direita?”
Minha resposta é:
“Da mesma maneira que uma pessoa negra pode ser de esquerda: porque é livre para escolher.”
O negro também quer trabalhar, empreender e prosperar
Também rejeito a ideia de que pessoas negras sejam naturalmente dependentes de benefícios governamentais.
Homens e mulheres negros sempre trabalharam, empreenderam, construíram famílias, abriram negócios, estudaram, exerceram profissões e lutaram para melhorar suas condições de vida.
É preciso combater tanto o racismo quanto o preconceito de que o negro precisa ser tratado eternamente como vítima ou como alguém incapaz de construir seu próprio caminho.
Defender políticas sociais para quem realmente precisa não significa, necessariamente, defender uma dependência permanente do Estado.
Acredito em uma sociedade na qual o Estado possa ajudar quem precisa, mas na qual o cidadão também tenha oportunidades para trabalhar, empreender, produzir e prosperar.
Não quero apenas receber uma pequena parte do bolo. Quero ter condições de participar da construção de um bolo maior e encontrar oportunidades reais de conquistar uma fatia digna dele.
E as minhas escolhas políticas?
Minha identificação com a direita também está relacionada a valores e propostas que considero importantes.
Vejo com preocupação algumas posições presentes em setores da esquerda, especialmente em temas relacionados ao aborto, às drogas, à segurança pública, às políticas de desencarceramento, à família e a determinadas pautas culturais.
Ao mesmo tempo, considero importante deixar claro que a esquerda não é um bloco homogêneo, assim como a direita também não é. Existem diferentes correntes, pensamentos e posições dentro de cada espectro político.
Minha escolha não acontece simplesmente porque alguém disse que “a direita é melhor”.
Procuro avaliar aquilo que considero coerente com meus princípios.
Defendo o direito de trabalhar e empreender. Defendo a propriedade, a responsabilidade individual e a liberdade econômica. Defendo a família como uma instituição importante. Defendo os valores cristãos em minha vida. Defendo políticas de segurança que protejam o cidadão e não deixem o trabalhador refém da criminalidade.
Também acredito que pessoas negras devem ter liberdade para discordar de determinados movimentos e propostas sem serem acusadas de traição à própria raça.
Não quero que minha cor vote por mim
Talvez essa seja a principal mensagem deste artigo:
eu não quero que minha cor vote por mim.
Quero votar com minha consciência.
Quero analisar propostas.
Quero conhecer o histórico dos candidatos.
Quero observar seu caráter.
Quero avaliar sua capacidade.
Quero entender suas ideias.
E, depois disso, quero ter a liberdade de escolher.
Ser negro não me obriga a votar na esquerda.
Ser pobre não me obriga a defender o Estado como solução para todos os problemas.
Ser morador de favela não me obriga a aceitar que a violência faça parte da minha vida.
Ser cristão não significa que eu não possa participar do debate político.
E ser de direita não apaga nenhuma dessas características.
Eu sou negro. Sou pobre. Sou favelado. E sou de direita porque essa é uma escolha política que fiz depois de analisar aquilo em que acredito.
Não estou dizendo que todo negro deve ser de direita.
Estou dizendo justamente o contrário: cada negro deve ter o direito de escolher por si mesmo.
Porque a liberdade não pode existir apenas para quem pensa como nós.
Se queremos uma sociedade verdadeiramente livre, precisamos aceitar que pessoas da mesma raça, da mesma classe social, da mesma comunidade e até da mesma família possam pensar de maneiras diferentes.
A minha cor não determina minha consciência.
A minha origem não determina meu voto.
A minha condição econômica não determina meus princípios.
Sou negro de direita por escolha.
E, se alguém ainda perguntar:
“Como você pode ser negro, pobre, favelado e de direita?”
Minha resposta continuará sendo:
“Simples: isso se chama liberdade de escolha. Entendeu ou quer que eu desenhe?”
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