Imagem de capa do artigo: Quem pede tolerância sendo intolerante

Quem pede tolerância sendo intolerante

Grasi Nunes4 min

Grasi chegando com mais um direta

  Quem pede tolerância sendo intolerante

O combate à intolerância exige coerência. Não é possível pedir respeito para determinados grupos e, ao mesmo tempo, utilizar termos depreciativos contra pessoas por causa de sua religião. A tolerância, para ser realmente defendida, precisa valer para todos — inclusive para aqueles de quem discordamos política, cultural ou religiosamente.

É dentro dessa discussão que se insere uma declaração atribuída ao ator José de Abreu, conhecido por seu trabalho na Rede Globo, ao chamar evangélicos de “evanjegues”. Na avaliação apresentada neste artigo, uma expressão desse tipo contradiz justamente o princípio de tolerância que tantas vezes é defendido no debate público.

Mais do que uma simples divergência de opiniões, a questão que precisa ser discutida é: por que ridicularizar a religião de alguém seria aceitável quando o alvo pertence a determinado grupo?

A ridicularização dos evangélicos

Esse tipo de situação não aparece isoladamente.

Ao longo dos anos, evangélicos e protestantes já foram alvo de diferentes formas de representação crítica ou satírica em discursos, novelas, séries e outras manifestações culturais.

Em fevereiro de 2026, por exemplo, a escola de samba Acadêmicos de Niterói apresentou, durante o Carnaval, uma ala que colocava conservadores dentro de latas de conserva. Entre os grupos representados estavam também religiosos evangélicos.

Independentemente das posições políticas envolvidas, representações desse tipo provocam uma discussão importante sobre os limites entre crítica, sátira, liberdade artística e ridicularização de grupos religiosos.

A atriz Luana Piovani também fez declarações duras contra evangélicos. Na avaliação defendida neste artigo, esse tipo de generalização pode contribuir para ampliar justamente a intolerância que deveria ser combatida.

É perfeitamente legítimo criticar líderes religiosos, instituições, ideias, posicionamentos políticos ou comportamentos individuais. O problema surge quando milhões de pessoas passam a ser tratadas de maneira depreciativa simplesmente por pertencerem a determinada religião.

Protestantes também realizam trabalhos sociais

Outro problema das generalizações é ignorar a diversidade existente dentro do próprio meio protestante.

Existem igrejas, organizações e fiéis envolvidos em diferentes trabalhos sociais. Protestantes participam, por exemplo, de iniciativas de auxílio e resgate de pessoas na Cracolândia, visitam hospitais e oferecem apoio a pessoas que enfrentam depressão, inclusive reconhecendo a importância da ciência e do acompanhamento profissional.

Também existem comunidades religiosas que recebem pessoas LGBT que, muitas vezes, chegam aos templos com receio de serem expulsas ou rejeitadas, mas encontram acolhimento e tratamento respeitoso.

Nada disso significa que não existam problemas dentro das igrejas ou que instituições religiosas devam estar acima de críticas. Significa apenas que não é correto transformar todo um grupo em uma caricatura.

Assim como não seria justo julgar todas as pessoas de qualquer religião pelo comportamento de alguns indivíduos, o mesmo princípio deve ser aplicado aos protestantes e evangélicos.

O que diz a legislação brasileira?

A liberdade religiosa não depende apenas da boa vontade das pessoas. Ela também recebe proteção jurídica.

A Lei nº 7.716/1989, posteriormente modificada por outras normas, estabelece punições para crimes resultantes de discriminação ou preconceito relacionados, entre outros fatores, à religião.

A legislação brasileira também prevê punição para a injúria quando são utilizados elementos referentes à religião. O Código Penal estabelece:

“Se a injúria consiste na utilização de elementos referentes a religião ou à condição de pessoa idosa ou com deficiência:
Pena — reclusão, de 1 (um) a 3 (três) anos, e multa.”

A legislação, portanto, reconhece que ataques motivados pela religião podem ultrapassar o campo da mera discordância e alcançar consequências jurídicas, dependendo das circunstâncias concretas de cada caso. Isso não significa que toda manifestação considerada intolerante seja automaticamente enquadrada da mesma forma; a caracterização jurídica depende da conduta praticada e da legislação aplicável.

Tolerância precisa valer para todos

O ponto central não deveria ser determinar qual grupo político ou religioso pode atacar o outro. A questão é estabelecer um princípio que seja aplicado de maneira coerente.

Se queremos combater a intolerância contra religiões de matriz africana, católicos, judeus, muçulmanos, espíritas ou qualquer outra religião, o mesmo princípio precisa proteger protestantes e evangélicos.

Da mesma maneira, defender o direito de um evangélico expressar sua fé não significa concordar com tudo aquilo que determinado pastor, igreja ou fiel diga. Crítica e discordância fazem parte de uma sociedade livre.

O que não deveria ser normalizado é transformar a identidade religiosa de milhões de pessoas em motivo de desprezo.

A democracia permite que religiosos se posicionem politicamente da mesma forma que permite que ateus, agnósticos e integrantes de qualquer outra crença façam o mesmo. Discordar desses posicionamentos é legítimo; tentar desqualificar alguém simplesmente por sua religião é outra questão.

No final, existe uma pergunta que precisa ser feita a todos os lados do debate:

que valor possui um discurso sobre tolerância quando a tolerância é exigida apenas para aqueles com quem concordamos?

Referências

  • livroConstituição Federal : 1988

Comentários

Carregando comentários...

Compartilhar
Todos os artigos

Artigos relacionados