
O que a cultura nerd fala sobre sociedade, valores e formação de caráter?
Aqui estamos falando sobre os detalhes da cultura nerd
A cultura nerd vai muito além do entretenimento. Séries, animes, tokusatsu, filmes e outras obras apresentam dilemas relacionados à família, amizade, honra, responsabilidade, lealdade, medo, sacrifício e formação de caráter. Muitas dessas histórias funcionam como representações dos conflitos existentes na própria sociedade.
Por isso, quando observamos a cultura nerd com mais profundidade, podemos fazer uma pergunta importante: a sociedade está realmente se desenvolvendo ou está se corroendo diante de um mundo cada vez mais caótico?
Na minha interpretação, parte da cultura contemporânea passou a ser influenciada por correntes ideológicas que procuram transformar valores tradicionais e a maneira como crianças, adolescentes e adultos enxergam a sociedade. Quando a cultura deixa de formar pessoas capazes de pensar, questionar e amadurecer para simplesmente produzir militância, perde-se uma parte importante de sua função.
Heróis, sentimentos e formação de caráter
Os sentimentos humanos sempre estiveram presentes nas grandes histórias.
Em séries clássicas como U.S. Marshals, por exemplo, encontramos questões relacionadas à honra e ao dever policial. Em NCIS, um dos elementos importantes é a construção de vínculos entre pessoas que, apesar de trabalharem juntas, acabam formando uma espécie de família.
Nos animes, encontramos outros exemplos. Dragon Ball acompanha Goku durante diferentes fases de sua vida, inclusive sua formação familiar. Em Demon Slayer, Tanjiro é profundamente marcado por sua determinação de proteger Nezuko.
Esses elementos também fazem parte da formação de caráter dos personagens.
Um problema aparece quando o herói já surge praticamente pronto, sem precisar passar por grandes transformações. As histórias clássicas normalmente apresentam personagens que precisam errar, sofrer, aprender e amadurecer.
Esse processo pode ser relacionado à estrutura da jornada do herói apresentada por Joseph Campbell. O protagonista enfrenta desafios, encontra aliados e mentores, confronta seus medos e retorna transformado.
Também podemos relacionar esse processo às reflexões de Carl Jung sobre a sombra. O personagem precisa olhar para seu próprio interior e confrontar aquilo que teme encontrar em si mesmo.
Até mesmo a figura do “velho sábio” aparece constantemente na cultura nerd. Mestre Kame, em Dragon Ball, representa um exemplo desse arquétipo: alguém que possui experiência e participa do processo de formação do herói.
O verdadeiro herói não é necessariamente aquele que começa perfeito. Muitas vezes, é justamente aquele que precisa descobrir suas próprias limitações antes de crescer.
O risco de destruir o clássico apenas para criar o novo
Existe uma diferença entre renovar uma obra e simplesmente destruir aquilo que lhe dava identidade.
Quando determinados elementos clássicos são retirados sem que algo significativo seja colocado em seu lugar, uma história pode perder sentimentos, simbolismos e valores que anteriormente ajudavam o público a se conectar com seus personagens.
Em minha leitura, algumas correntes modernas acabam contribuindo para esse vazio existencial ao romper com tradições sem necessariamente oferecer algo capaz de substituí-las.
Autores como Nietzsche, Engels e Marx participaram, cada um de maneira muito diferente, de debates filosóficos, políticos e sociais que influenciaram profundamente os séculos seguintes. Suas ideias continuam sendo discutidas e interpretadas de maneiras diferentes até hoje.
A questão que proponho é outra: quando uma sociedade abandona seus referenciais culturais, familiares, religiosos e históricos, o que coloca no lugar?
Família, amizade e responsabilidade
Durante mais de um século, diferentes correntes políticas e filosóficas disputaram espaço dentro da sociedade. Família, religião, educação, trabalho, cultura e até a própria definição de indivíduo passaram a ser campos de disputa.
Dentro da visão conservadora da cultura nerd apresentada neste artigo, existe uma preocupação particular com a preservação da família, da responsabilidade individual, da tradição e da liberdade religiosa, incluindo a defesa do direito de cristãos e judeus viverem sua fé.
Curiosamente, muitos desses valores aparecem nas próprias histórias nerds.
Goku procura proteger aqueles que ama.
Gibbs, em NCIS, protege sua equipe e desenvolve com seus integrantes uma relação que vai além do trabalho.
Seiya luta por Saori e pela proteção da Terra.
São personagens muito diferentes, pertencentes a universos completamente distintos, mas todos carregam algum sentido de dever em relação a outras pessoas.
É exatamente aí que encontramos uma das forças da cultura nerd: grandes personagens raramente vivem exclusivamente para si mesmos.
Reconhecer os próprios erros também faz parte da jornada
Outro valor constantemente apresentado pelas histórias é a necessidade de olhar para dentro de si.
Crescer exige reconhecer onde erramos, admitir nossos próprios defeitos e tentar mudar.
Esse processo não é simples.
Quando amadurecemos, começamos a compreender melhor quem somos e também quem realmente permanece ao nosso lado. É nesse momento que conceitos como amizade e lealdade passam a ter um significado diferente.
As histórias também mostram o lado oposto: a traição.
Um exemplo conhecido está em O Rei Leão, quando Scar mata Mufasa. A traição faz parte do desenvolvimento da narrativa justamente porque revela algo sobre a índole dos personagens e provoca consequências profundas para aqueles que permanecem.
Histórias como essa mostram que confiança, lealdade, ambição e responsabilidade não são apenas conceitos abstratos. Eles possuem consequências.
A cultura nerd também pode educar
A cultura nerd sempre apresentou inúmeros temas que podem ser utilizados para discutir sociedade, educação, filosofia, história, psicologia e religião.
Porém, muitas vezes consumimos essas obras apenas como entretenimento e não percebemos tudo o que existe por trás delas.
É justamente por acreditar nesse potencial que considero importante aproximar cultura e educação.
Esse também é um dos caminhos defendidos pelo QG Engel e por iniciativas parceiras citadas neste contexto, como a Liga Nerdola, o Grupo ELANE e a Timeline. Cada projeto atua de maneira diferente, mas existe a possibilidade de utilizar cultura, produção de conteúdo e educação como instrumentos de reflexão.
Reconstruir uma cultura não significa simplesmente retornar ao passado. Significa compreender aquilo que possuía valor, aprender com os erros históricos e decidir conscientemente o que queremos transmitir às próximas gerações.
Recuperar o belo, a filosofia e a fé
Também precisamos recuperar o interesse pelas grandes perguntas humanas.
Ler Platão e Sócrates significa voltar a discutir temas como justiça, virtude, verdade, conhecimento e vida em sociedade.
Buscar São Tomás de Aquino significa entrar novamente no debate sobre razão, fé, moralidade e existência.
Não significa que todos chegarão às mesmas respostas.
Significa que uma sociedade precisa voltar a fazer perguntas profundas.
O que é o bem?
O que é justiça?
Qual é nossa responsabilidade diante da família?
Qual é nossa responsabilidade diante da sociedade?
O que torna uma pessoa verdadeiramente livre?
São perguntas antigas, mas continuam extremamente atuais.
Ficção científica, tecnologia e transumanismo
Existe ainda outro debate que a cultura nerd apresenta há décadas: nossa relação com a tecnologia.
O transumanismo e a possibilidade de modificar ou ampliar capacidades humanas por meio da tecnologia levantam questões filosóficas, morais e sociais importantes.
Essas discussões se tornaram especialmente presentes na cultura do pós-Segunda Guerra Mundial e durante a Guerra Fria, período em que o avanço tecnológico, as armas nucleares, a corrida espacial, a computação e outras transformações modificaram profundamente a visão que a humanidade tinha sobre seu próprio futuro.
Décadas depois, filmes como Alien, o Oitavo Passageiro e RoboCop utilizariam a ficção científica para apresentar preocupações relacionadas à tecnologia, às corporações, ao poder e à própria condição humana.
Por isso, essas obras podem ser lidas não apenas como entretenimento, mas como representações simbólicas de preocupações reais de suas respectivas épocas.
Isso não significa necessariamente que exista uma “mensagem subliminar” planejada por trás de toda obra. Muitas vezes, filmes, séries e livros simplesmente refletem medos, debates e conflitos presentes no período em que foram produzidos.
É justamente por isso que vale a pena analisá-los.
O que queremos deixar para as próximas gerações?
No final, discutir cultura nerd é também discutir legado.
Que sociedade queremos deixar para nossos filhos, netos e para as gerações que ainda virão?
Heróis clássicos nos lembram constantemente que transformação exige esforço. O personagem precisa enfrentar dificuldades, reconhecer seus medos, encontrar pessoas capazes de orientá-lo e decidir que tipo de pessoa deseja se tornar.
Talvez nossa sociedade também esteja diante de uma jornada semelhante.
Podemos consumir cultura apenas como entretenimento ou podemos aprender a enxergar as perguntas escondidas dentro dessas histórias.
Família, amizade, lealdade, fé, responsabilidade, tecnologia, poder, liberdade, medo, traição e esperança sempre estiveram presentes na cultura nerd porque também fazem parte da experiência humana.
A verdadeira questão talvez não seja apenas o que a cultura nerd fala.
A pergunta que precisamos fazer é: estamos realmente ouvindo o que essas histórias têm para nos dizer?
Comentários
Carregando comentários...
Artigos relacionados
Os Verdadeiros Vândalos: a Contradição entre o Discurso e as Atitudes na Avenida Paulista
Grasi Nunes
A Grasi sem filtro esta sempre atenta
Ler ArtigoDia das Crianças e a Inocência: Os Sete Alicerces para Preservar a Infância, a Família e a Liberdade
Lord Engel
Vamos falar sobre infancia e adolescencia
Ler ArtigoSanemi Shinazugawa, o Vento e as Mudanças Climáticas: personalidade, família e dinâmica atmosférica
Suelen
Mais uma aula da Suelen
Ler Artigo

