
PH falando de eleições 26
A cinco dias do primeiro turno, a disputa não é só de pesquisa. É de herança, de recusa e de escolha./o:p>
Joseph Campbell descreveu o herói que recusa o chamado. Luke Skywalker queria ficar em Tatooine. Simba, no Rei Leão, fugiu da Pedra do Rei e preferiu o “hakuna matata” a assumir o que o pai lhe deixara. O mito não começa com o voluntário. Começa com o homem que estava ocupado com a própria vida quando a história bateu à porta. No fim de 2025, numa cela de doze metros quadrados, Jair Messias Bolsonaro olhou o filho mais velho e disse o que Obi-Wan e Mufasa dizem, cada um à sua maneira: vai ser você./o:p>
Flávio aceitou. Não porque o roteiro fosse cômodo. O pai cumpre condenação de 27 anos e três meses; o sistema que o tirou da urna agora mede o filho nas pesquisas como se o sobrenome fosse ao mesmo tempo capital e sentença. A cinco dias do primeiro turno, marcado para 4 de outubro, Quaest, Datafolha, AtlasIntel e Real Time Big Data descrevem o mesmo desenho: Lula à frente no primeiro turno por margem estreita; empate técnico no segundo. Terceira via — Cury, Caiado, Renan Santos, Zema — parte o resto. É nesse resto que o voto “de consciência” se transforma, com frequência, em voto que ajuda o adversário a não precisar do segundo round./o:p>
O herói que não estava no cartaz/o:p>
O azarão de 2018 era o próprio Jair: capitão reformado, tratado como peça de museu, eleito depois da facada. O de 2026 não escolheu o papel. Foi escolhido. A Reuters registrou a frase do pai — “Vamos lá, é você” — e a resposta do filho: o sistema humilhou e condenou o homem porque não o queria na vida pública. Em convenção, Flávio falou em receber a faixa das mãos do pai. Em Teófilo Otoni, repetiu a cena que o mito exige: o herdeiro subindo a rampa com quem o chamou./o:p>
Não é propaganda de dinastia. É a estrutura que Campbell chamou de call to adventure. O herói não inventa a missão; a missão o encontra. Luke não planejou explodir a Estrela da Morte. Simba não planejou enfrentar Scar. Ambos preferiam a fazenda e a savana sem trono. O chamado veio porque o reino estava ocupado — no filme, pelo tio usurpador; na política brasileira, por um bloco que trata o adversário como inimigo da cidade e o processo como liturgia./o:p>
Olavo de Carvalho insistia que política sem forma vira teatro de ocupação: quem controla a narrativa decide quem pode ser candidato e quem deve ser apenas réu. O eleitor que finge não ver isso e procura um “terceiro nome limpo” para dormir em paz está fazendo o que Simba fez no exílio: cantar que o problema não é mais dele./o:p>
O que as pesquisas dizem — e o que o voto útil significa/o:p>
Na Quaest de 28 de setembro, Lula marca 39% no primeiro turno e Flávio, 34%. No segundo, 42% a 42%. A terceira via somada caiu de 16% para 12% em um mês. No Datafolha de 24 de setembro, 40% a 36% no primeiro; 47% a 45% no segundo. AtlasIntel/Bloomberg, 23 de setembro: 45,8% a 43,4% no primeiro; 47,7% a 47,4% no segundo. Real Time Big Data, 24 de setembro: 41% a 37% no primeiro; Flávio 45% e Lula 44% no segundo. Palver chegou a registrar 43% a 43% no primeiro e Flávio numericamente à frente no segundo./o:p>
A lição não é de institutos. É de aritmética. O primeiro turno brasileiro premia quem concentra. Diluir o campo que quer impedir a reeleição de Lula entre Cury, Caiado, Renan e Zema é o equivalente a deixar Scar no trono porque Simba “não é o pai”. Voto útil não é cinismo. É recusa de ajudar o ocupante com o voto que se pretende puro. Hannah Arendt viu no totalitarismo o hábito de atomizar a oposição até que cada um lute sozinho e perca junto. A urna de 4 de outubro testa exatamente isso./o:p>
Quem espera o candidato perfeito espera Godot. Flávio carrega o sobrenome, o caso Master, o filme Dark Horse, a rejeição que as pesquisas medem no mesmo patamar da de Lula. Nenhuma dessas contas apaga a outra conta: no segundo turno, os dois empatam. Quem gasta o primeiro turno ensaiando virtude entrega ao segundo um adversário já sentado./o:p>
Luke, Simba e o filho que recebeu a espada/o:p>
No Rei Leão, o pai não volta para governar no lugar do filho. Volta como memória e exigência. “Lembre quem você é.” Em Guerra nas Estrelas, Anakin já caiu; Luke herda a dívida e a luz. Jair não pode ser candidato. A Justiça o tirou do palanque. O chamado ao filho é, portanto, o único instrumento que restou à tribo que em 2018 e 2022 se reconheceu naquele nome. Recusar o instrumento porque o portador não é o original é o mesmo que recusar a sabre porque Luke não é Anakin no auge./o:p>
Há diferença, e convém não mentir. Flávio não é o capitão de 2018. É senador, é herdeiro, é campanha sob o peso do pai preso. O mito do herói improvável não exige santidade. Exige que alguém atravesse a porta quando o reino pede. Campbell chamou o momento seguinte de prova: o herói entra no mundo especial e encontra dragões que o cartaz não anunciava. Master, STF, rejeição feminina, centro que não veio, vice Alfredo Gaspar no lugar da grande aliança que Jair teve. Tudo isso é prova. Não é álibi para voltar ao “hakuna matata” da terceira via./o:p>
Isaiah Berlin distinguia a liberdade de não ser impedido da liberdade de ser moldado pelo engenheiro social. O bloco que hoje pede “voto de consciência” contra o filho de Bolsonaro costuma ser o mesmo que trata o processo penal como atalho político. Friedrich Hayek alertou que o caminho da servidão começa quando se aceita que o fim nobre justifica o meio concentrado. O eleitor que fragmenta o primeiro turno para “castigar” Flávio não castiga o sistema. Alimenta-o./o:p>
Conclusão/o:p>
No domingo, 4 de outubro, o Brasil não escolhe um santo. Escolhe se o chamado feito na cela vira urna ou vira lamento. Luke poderia ter ficado na fazenda. Simba poderia ter ficado com Timão e Pumba. Os dois filmes existem porque o herói, no fim, deixa de fugir. O voto útil, nesta eleição, é o nome adulto dessa cena: concentrar no único nome que as pesquisas colocam em empate com Lula no segundo turno, em vez de presentear o primeiro turno a quem já governa./o:p>
Pode-se criticar Flávio. Deve-se cobrá-lo. O que não se pode é fingir que a recusa ao chamado é virtude, quando o reino está ocupado. O pai apontou o filho. O filho aceitou. Resta saber se o eleitor prefere o mito que atravessa a porta ou a canção que diz que o problema não é mais dele./o:p>
Comentários
Carregando comentários...
Artigos relacionados
Os Verdadeiros Vândalos: a Contradição entre o Discurso e as Atitudes na Avenida Paulista
Grasi Nunes
A Grasi sem filtro esta sempre atenta
Ler ArtigoEleições 2026: a força da direita no Rio de Janeiro e o novo cenário político
Grasi Nunes
Eleições 26, segundo turno com Grasi
Ler ArtigoO legado político em disputa no Brasil: eleições, cultura e um projeto de longo prazo
Lord Engel
Amanhã seu voto importa
Ler Artigo

