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Não precisamos dos homens para nada? O resgate de Ibirité e uma reflexão sobre masculinidade, coragem e responsabilidade

Grasi Nunes11 min

Grasi sempre sendo direto

  Não precisamos dos homens para nada? O resgate de Ibirité e uma reflexão sobre masculinidade, coragem e responsabilidade

O ato do motoboy Vinícius Martins de Paulo, que enfrentou um enxame de abelhas para socorrer uma menina de 12 anos em Ibirité, levanta uma discussão que vai muito além daquele momento: qual é o lugar da masculinidade, da coragem, da responsabilidade e do instinto de proteção na sociedade contemporânea?

Artigo de opinião — QG Engel

Em 14 de setembro de 2026, uma situação desesperadora ocorreu em Ibirité, na Região Metropolitana de Belo Horizonte, Minas Gerais.

Uma menina de 12 anos foi cercada por um enxame de abelhas nas proximidades de uma escola. Segundo as informações divulgadas posteriormente, uma colmeia havia caído de uma árvore, deixando os insetos agitados e provocando ataques a várias pessoas que estavam na região.

Entre aqueles que presenciaram a situação estava Vinícius Martins de Paulo, conhecido nas redes sociais como MotoViny.

Ele poderia ter seguido seu caminho.

Poderia ter pensado apenas na própria segurança.

Poderia ter concluído que não era problema dele.

Mas não fez isso.

Vinícius entrou naquela situação de perigo para ajudar uma criança que sequer conhecia.

E pagou fisicamente por sua decisão.

Um pai entrou no meio do enxame

Vinícius contou que, ao observar a menina sendo atacada, imediatamente pensou nas próprias filhas.

Pai de duas meninas, ele afirmou que não pensou duas vezes antes de agir. Enquanto tentava afastar os insetos e retirar a adolescente da zona de perigo, Vinícius sofreu cerca de 40 ferroadas. Ele utilizou inclusive um desodorante em spray para tentar dispersar as abelhas enquanto outras pessoas também colaboravam jogando água.

A menina sofreu mais de 100 picadas, principalmente na região da cabeça, rosto e pescoço, e precisou ser hospitalizada, chegando a permanecer em um Centro de Terapia Intensiva.

Felizmente, a história teve um desfecho positivo.

Em 21 de setembro de 2026, a adolescente deixou o hospital e relatou estar bem. Ao falar sobre o socorro recebido, demonstrou gratidão a Vinícius e às demais pessoas que a ajudaram.

Depois que a história ganhou repercussão nas redes sociais, Vinícius também foi homenageado pela chamada Tropa do Bem, grupo de influenciadores que lhe presenteou com um carro e uma motocicleta.

Mas carros, motocicletas ou repercussão nas redes sociais não são o aspecto mais importante dessa história.

O que realmente merece discussão é a decisão tomada durante aqueles segundos em que ninguém sabia como a situação terminaria.

Vinícius decidiu correr risco por outra pessoa.

“Não precisamos dos homens para nada?”

Nos debates sobre relações entre homens e mulheres, ocasionalmente aparecem discursos segundo os quais um dos sexos seria desnecessário, dispensável ou até um obstáculo para o outro.

É importante fazer uma distinção.

O feminismo não constitui um bloco único. Existem diferentes correntes, escolas e interpretações dentro do pensamento feminista, e seria incorreto atribuir a todas elas a afirmação de que “homens são inúteis” ou que a sociedade seria melhor sem homens.

Da mesma maneira, problemas como abandono parental e famílias formadas apenas por um dos responsáveis possuem causas sociais e individuais diversas e não podem ser atribuídos de maneira automática a um único movimento cultural.

Entretanto, isso não significa que discursos de misandria — isto é, preconceito, hostilidade ou desprezo direcionado aos homens — devam ser ignorados quando aparecem.

Da mesma forma que misoginia não deve ser aceita, transformar homens coletivamente em inimigos ou tratá-los como seres descartáveis também não constrói uma sociedade saudável.

Talvez o episódio de Ibirité seja uma oportunidade para uma discussão melhor.

Homens e mulheres não precisam viver uma guerra permanente entre os sexos.

Precisamos uns dos outros.

O problema não é ser homem

Existe uma diferença essencial entre masculinidade e comportamento destrutivo.

Agressividade sem controle, violência contra inocentes, irresponsabilidade, abandono familiar, abuso de poder e brutalidade não devem ser romantizados como características masculinas.

São comportamentos moralmente condenáveis.

Mas coragem, disciplina, capacidade de assumir riscos, responsabilidade, proteção da família, domínio próprio e disposição para defender quem está vulnerável podem ser virtudes.

O problema, portanto, não é simplesmente a masculinidade.

A questão é que tipo de masculinidade estamos formando.

Um homem incapaz de controlar seus impulsos pode representar perigo.

Mas um homem que domina a própria força e decide utilizá-la para proteger outra pessoa pode representar justamente o contrário.

Vinícius não atacou alguém.

Ele enfrentou um perigo.

Não utilizou força para dominar uma pessoa vulnerável.

Utilizou sua coragem para tentar salvar uma.

Essa distinção é fundamental.

A masculinidade como responsabilidade

Existe uma ideia de masculinidade particularmente importante para pais: força acompanhada de responsabilidade.

Quando Vinícius explicou por que resolveu agir, sua resposta não veio de alguma teoria acadêmica sobre gênero.

Veio da paternidade.

Ele viu uma menina desconhecida e pensou nas próprias filhas.

Esse detalhe transforma profundamente a interpretação da história.

Ser pai pode modificar a maneira como um homem observa uma criança em perigo. Naquele instante, ele não enxergou apenas uma desconhecida.

Enxergou alguém que poderia ser sua filha.

Essa capacidade de transportar emocionalmente a experiência da própria família para a situação de outra pessoa é uma forma poderosa de empatia.

E empatia não significa simplesmente sentir.

Naquele caso, significou agir.

Coragem não significa ausência de medo

Psicologicamente, coragem não deveria ser confundida com ausência de medo.

Uma pessoa corajosa pode sentir medo e ainda assim decidir que existe algo mais importante do que a própria sensação de segurança.

Essa diferença também possui enorme valor educacional.

Quando ensinamos crianças e adolescentes que coragem significa nunca sentir medo, criamos uma imagem impossível.

A verdadeira questão é aprender a avaliar riscos, controlar impulsos e agir corretamente diante de situações difíceis.

Naturalmente, isso não significa que uma pessoa deva enfrentar qualquer situação perigosa sem preparação.

Ataques de abelhas podem ser extremamente perigosos, e a orientação adequada continua sendo procurar abrigo e acionar serviços de emergência quando possível.

O episódio de Vinícius foi uma situação excepcional.

Seu comportamento merece reconhecimento pela disposição de proteger a adolescente, mas não deve transformar improvisação diante de animais perigosos em recomendação geral.

Homens e mulheres não são inimigos

Existe outro ensinamento importante.

A valorização dos homens não exige a desvalorização das mulheres.

E a valorização das mulheres não deveria exigir a desumanização dos homens.

Uma sociedade saudável deveria conseguir dizer simultaneamente que mulheres possuem dignidade, autonomia e capacidade e que homens possuem dignidade, importância e responsabilidades.

Transformar relações humanas numa disputa para determinar qual sexo seria “mais necessário” significa começar a discussão pela pergunta errada.

Famílias, comunidades e civilizações historicamente foram construídas por homens e mulheres.

Com funções que mudaram profundamente conforme época, cultura, tecnologia e estrutura social, ambos participaram da construção das sociedades humanas.

O desafio contemporâneo deveria ser formar pessoas melhores — não ensinar metade da humanidade a desprezar a outra metade.

Uma perspectiva histórica sobre coragem e sacrifício

A própria história demonstra repetidamente como sociedades dependem de pessoas dispostas a assumir riscos em defesa de outras.

A Segunda Guerra Mundial oferece um exemplo gigantesco disso.

É correto destacar o papel militar desempenhado por milhões de homens durante a guerra, mas historicamente é necessário reconhecer que a derrota da Alemanha nazista resultou de uma ampla coalizão dos Aliados.

União Soviética, Reino Unido e Estados Unidos tiveram papéis centrais na derrota militar alemã, juntamente com outras forças aliadas, movimentos de resistência e populações mobilizadas em diferentes frentes.

O Museu Memorial do Holocausto dos Estados Unidos registra que União Soviética, Reino Unido e Estados Unidos conseguiram reverter o avanço alemão e que a Alemanha nazista acabou derrotada em maio de 1945.

Milhões de homens morreram nesses conflitos.

Milhões de mulheres também trabalharam em hospitais, indústrias, agricultura, inteligência, resistência e inúmeras outras funções fundamentais.

A lição histórica, portanto, não deveria ser uma competição entre homens e mulheres.

É que civilizações sobrevivem quando existem pessoas dispostas a assumir responsabilidade por algo maior do que elas próprias.

O maior modelo cristão de masculinidade

Dentro da perspectiva cristã, existe ainda uma dimensão mais profunda.

Para o cristianismo, o maior modelo de masculinidade não é simplesmente o guerreiro fisicamente mais forte.

É Jesus Cristo.

Cristo possui autoridade, mas também serve.

Possui poder, mas demonstra misericórdia.

Confronta aquilo que considera errado, mas também acolhe aqueles que sofrem.

E, principalmente, entrega a própria vida.

Essa concepção aparece de maneira especialmente clara em Efésios 5:25, quando o marido é chamado a amar sua esposa segundo o modelo do amor de Cristo pela Igreja.

Não se trata de dominar.

Trata-se de sacrificar-se.

A Igreja é simbolicamente apresentada no Novo Testamento como noiva de Cristo, e o modelo colocado diante do homem cristão não é o de utilizar sua força apenas em benefício próprio.

É assumir responsabilidade.

Servir.

Proteger.

Sacrificar.

Também encontramos esse princípio em João 15:13, na ideia de que não existe amor maior do que dar a vida pelos amigos.

Independentemente das diferenças gigantescas entre uma narrativa teológica e um acontecimento cotidiano, existe um princípio moral que pode ser relacionado aos dois contextos:

amor verdadeiro possui custo.

Força sem virtude pode destruir. Força com responsabilidade pode proteger

É exatamente aí que o debate sobre masculinidade precisa amadurecer.

Força física, coragem ou disposição para confrontar perigos não são automaticamente virtudes.

Tudo depende de como são utilizadas.

Um homem forte sem caráter pode utilizar sua força para oprimir.

Um homem forte com princípios pode utilizá-la para proteger.

Da mesma forma, coragem sem prudência pode se transformar em imprudência.

Mas prudência sem coragem pode se transformar em passividade diante de situações nas quais alguém precisava agir.

Virtude exige equilíbrio.

Essa ideia remete inclusive à tradição filosófica clássica. Desde Aristóteles, a coragem é discutida como uma virtude situada entre extremos: não é covardia, mas também não é temeridade irracional.

O desafio é saber quando permanecer, quando recuar e quando agir.

O verdadeiro debate que o caso de Ibirité deveria provocar

Talvez devêssemos abandonar a pergunta superficial sobre qual sexo consegue viver sem o outro.

Essa competição cultural produz mais ressentimento do que soluções.

A pergunta mais importante seria:

Que homens e mulheres estamos formando para a próxima geração?

Queremos homens irresponsáveis, violentos e ausentes?

Evidentemente não.

Mas também não deveríamos desejar homens passivos, indiferentes ao sofrimento de outras pessoas e incapazes de assumir responsabilidades.

Queremos mulheres dependentes e sem autonomia?

Também não.

Mas autonomia não precisa significar hostilidade contra homens.

Liberdade não deveria significar solidão.

Independência não deveria significar desprezo pelo outro.

Homens e mulheres possuem defeitos.

Existem homens bons e homens maus.

Existem mulheres boas e mulheres más.

A capacidade humana para virtude ou maldade não pertence exclusivamente a um sexo.

Um homem viu uma criança e decidiu agir

Por isso, talvez o elemento mais importante da história de Vinícius Martins de Paulo seja justamente sua simplicidade.

Ele estava passando.

Viu alguém em perigo.

Pensou nas filhas.

E decidiu ajudar.

Não sabia que o vídeo ganharia repercussão.

Não sabia que receberia presentes.

Não sabia como aquela história terminaria.

Naquele instante existiam apenas um enxame, uma criança em perigo e uma decisão.

Ele poderia continuar.

Mas parou.

Podemos discutir masculinidade durante horas utilizando filosofia, psicologia, sociologia, política, religião e história.

Ainda assim, algumas vezes uma definição aparece diante de nós na forma de uma atitude.

Força não é provar que somos superiores aos outros.

Coragem não é procurar perigos desnecessários.

Masculinidade saudável não é dominar mulheres.

É aprender a utilizar força, capacidade, responsabilidade e coragem em favor daquilo que merece ser protegido.

E naquele dia, em Ibirité, um pai olhou para uma menina desconhecida e pensou:

“Poderia ser minha filha.”

Então decidiu agir.

Talvez seja precisamente esse tipo de masculinidade que uma sociedade saudável não deveria desprezar, mas ensinar a seus filhos.

Nota editorial

Este texto é um artigo de opinião. Os fatos relativos ao ataque de abelhas, ao resgate realizado por Vinícius Martins de Paulo, às aproximadamente 40 ferroadas sofridas por ele, às mais de 100 picadas sofridas pela adolescente, à internação e à posterior alta hospitalar foram confrontados com reportagens publicadas pelo Estado de Minas, BHAZ e Rádio Itatiaia. A interpretação sobre masculinidade, responsabilidade, misandria, família e valores cristãos pertence à análise editorial apresentada no artigo.

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Descrição para compartilhamento: Um pai viu uma menina cercada por abelhas, pensou nas próprias filhas e entrou no enxame para ajudá-la. O caso de Vinícius Martins abre uma discussão necessária: o problema é a masculinidade — ou a maneira como ensinamos os homens a utilizar sua força?

Chamada para redes sociais: “Não precisamos dos homens para nada?” Em Ibirité, um motoboy sofreu cerca de 40 ferroadas enquanto ajudava a salvar uma menina atacada por um enxame. O episódio vai além de uma notícia: é uma oportunidade para discutir coragem, responsabilidade, paternidade e o verdadeiro significado de uma masculinidade saudável.

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