
Live que virou matéria
Mafinha, fundador da Liga Nerdola, no QG Cultural Especial com Maurício (Engel) e PH/o:p>
1. Apresentação e o começo nerd/o:p>
Maurício: Boa noite, Mafinha. Bem-vindo ao QG. Conta como você começou esse negócio de entender que era nerd — quantos anos, quando, quem te puxou por aí./o:p>
Mafinha: Boa noite, rapaziada. Boa noite, Lord, PH, Nejar. Eu acho que eu nem sabia que era nerd, vou ser bem sincero. Sou dos anos 80, 90. Já comecei a ler quadrinhos lá por 1991, por aí, mas não achava que aquilo era “alguma coisa” com nome. Eu só lia. Na minha sala de aula ninguém lia; eu era o único que lia quadrinhos. Gostava de filme — principalmente dos anos 80, o que passava muito: De Volta para o Futuro, Indiana Jones. Aquela época./o:p>
Acho que fui começar a perceber um pouco o que era o nerd com o filme A Revolta dos Nerds. Ali a gente vê o estereótipo. Mas eu não me ligava muito, porque aquele filme é o que fixa o estereótipo dos nerds — e eu não era daquele jeito. Não era o cara superinteligente da sala. Antigamente o nerd era isso: o cara mais inteligente, o que tirava as melhores notas. Eu não era. Não tirava as melhores notas./o:p>
Aí vem o engraçado: a hora em que eu comecei a me ligar no que era nerd foi a hora em que o nerd começou a virar um negócio que já não era mais aquilo que eu sabia que era. Hoje “ser nerd” é tudo — menos ir a fundo. Eu vejo cada um dizendo que é nerd e o cara não sabe nem o planeta do Superman. Para mim, nerd de verdade é o cara que gosta de um assunto da cultura pop e vai fundo: pesquisa, entende. Tem gente que é nerd de música — tenho um primo assim: sabe todas as bandas, vai para trás, conhece vocalista, guitarrista. Eu sou mais nerd de quadrinhos e cinema; tem a galera do anime e do mangá que manja para caramba. É gostar de um assunto e se dedicar a ele./o:p>
Maurício / PH: Concordam que A Revolta dos Nerds é imbatível como retrato daquele estereótipo — e reforçam o convite: papo de nerdice e de vida./o:p>
2. Cultura pop como mitologia compartilhada/o:p>
Mafinha: A vida é muito chata, muito difícil, tem muito problema. A gente gosta de se distrair e ter um passatempo com o qual também se aprende. Cultura pop nada mais é do que uma mitologia compartilhada: pessoas de vários lugares do mundo compartilham histórias referentes à vida que todos os seres humanos têm. Mesmo morando em lugares muito diferentes — Estados Unidos, Canadá, Brasil, Indonésia, China — os dilemas são os mesmos. A cultura pop é um jeito de ver, por um olhar lúdico, os problemas do dia a dia — e até tentar achar soluções./o:p>
Infelizmente isso veio se perdendo por causa da ideologia. Escritores, roteiristas, produtores foram infectados por uma ideologia política. Não que não possa ter ideologia política — pode, não tem problema. Uma coisa que dá para cravar: antigamente era mais bem feito. O cara se esforçava para passar a visão de mundo dele. Você via um filme com mensagem — geralmente a galera toda de esquerda —, anticapitalista ou o que fosse, mas o cara fazia filme com roteiro caprichado. Mesmo uma pessoa de direita olhava e falava: pô, esse filme é bom, vale a pena assistir. Hoje em dia eles jogam uma série de chavões ideológicos na nossa cara e tornam certas coisas inassimiláveis./o:p>
Um exemplo bom é The Boys. A história tem muito potencial; o quadrinho do Garth Ennis tem muita crítica ao mundo dos super-heróis. Em alguns momentos a série de TV brilha. Mas o showrunner, na loucura anti-Trump, perdeu a mão completamente. O cara destrói./o:p>
Maurício: Confirma o ponto da qualidade: mensagem política não é o crime — mau profissionalismo e cuspe ideológico na cara do público, sim./o:p>
3. Terror de locadora e o que marca o gênero/o:p>
Nejar / bancada: A gente estava discutindo filmes de terror. Tu, como bom nerdola, qual é o teu filme de terror de referência no mundo pop?/o:p>
Mafinha: Gosto muito de filme de terror. Assistia muito quando era moleque — muito, muito. Sou de um tempo em que os pais nem sabiam o que a gente estava alugando na locadora. Voltar para casa com caixas… Eu fiquei devendo uma fortuna na locadora; meu Deus, era dinheiro de carrinho usado. Tinha uns 12 anos. O cara da locadora ficou me caçando um tempo./o:p>
Filme de terror marca a época — e tem vários estilos: slasher, e aquela onda de tortura, Jogos Mortais, Hostel, Smile… Eu não gosto de filme assim. Acho paia filme de tortura. O primeiro, o segundo de Jogos Mortais eu até gostei; depois não assisti mais. Entendo o apelo: quando era moleque eu via Faces da Morte, uma merda de compilado, e mesmo assim a molecada via./o:p>
Vou falar Poltergeist. O Steven Spielberg queria dirigir, fez uma força danada; se não me engano acabaram não deixando, mas ele escreveu o roteiro, escreveu tudo. Acho um dos filmes mais importantes do gênero no sentido de ser blockbuster — porque terror quase nunca é blockbuster. Tivemos pontos: O Exorcista, um ou outro. Halloween também: primeiro é suspense, entra no slasher — mas não existia o conceito de slasher; todas as características foram criadas ali. Adolescentes transando, o cara implacável, toma tiro e não morre. Está tudo ali. Carpenter. Depois ele só… naquele Os Vampiros de John Carpenter, ficou muito ruim. Eu assistia muitos filmes nos anos 90; gostava da temática — galera que caça vampiro pelo deserto de dia —, mas o filme é ruim, inclusive pela estética anos 90. Concordo com quem fala isso./o:p>
Maurício / PH: Concordam com as referências de terror e mantêm o foco no convidado./o:p>
4. O primeiro gibi: A Morte do Superman/o:p>
PH: Você falou que começou nerd com quadrinho. Qual foi o primeiro que você pegou e falou: porra, isso aqui é massa?/o:p>
Mafinha: O primeiro que eu peguei foi A Morte do Superman. Naquele tempo passava propaganda de quadrinhos na televisão — entre as novelas da Globo. Quadrinhos eram muito fortes nos anos 90; tinham muito destaque. Um dia eu estava com a minha madrinha; ela no boteco, eu também, porque foda-se: criança ia para boteco naquela época. Tava de saco cheio, fui dar um rolê pelo bairro — conhecia o bairro — e tinha uma banquinha. Vi a capa da Morte do Superman, um monte de propaganda. Pedi um dinheiro pra minha tia, comprei o quadrinho. A partir dali comecei a fazer coleção: toda vez que ia na banquinha, comprava. Fiquei viciado. Agradeço muito ter lido quadrinhos: me ajudou muito a passar pela infância e pela adolescência. São fases difíceis. Foi muito bom./o:p>
PH / Maurício: Concordam com a força do quadrinho nos 90 e com a propaganda na TV — e com o “não tinha filtro” daquela infância./o:p>
5. Marvel: X-Men, Homem-Aranha e Hulk/o:p>
Maurício (pergunta do chat — Igor): Quais são os heróis da Marvel preferidos?/o:p>
Mafinha: Sempre gostei muito de X-Men. Até hoje tenho um amor especial pelo universo mutante. A Chris Claremont — melhor fase; não tem nem o que falar. E não tem como não gostar de Homem-Aranha: é o herói mais próximo do que é ser um garoto; o mais identificável na adolescência. Mesmo que eu não tenha pegado a melhor fase do Homem-Aranha — o dos anos 90 não era a melhor; anos 70 e 80 com o Romita pai eram bem melhores —, eu li e gostava muito./o:p>
Hulk também é um personagem muito bom. Peca por maus escritores que não entendem o personagem: muitas vezes não compreendem que a força do Hulk é maneiro, mas não é a principal coisa. Tem desenvolvimento muito melhor pela questão psíquica do Hulk. Mas, no fim, X-Men e Homem-Aranha./o:p>
6. DC, Superman e o espírito que o identitarismo odeia/o:p>
Maurício: E da DC? Você sempre foi mais DC, né? Meu herói favorito é o Batman; o seu?/o:p>
Mafinha: Sempre fui mais DC Comics. Eu era “deceno”, naquele tempo: marvete, deceno. Meu herói favorito sempre foi Superman. Lia muito Batman, lia tudo de Batman, mas sempre gostei mais de Superman. Eu achava o Superman um paradoxo: o cara que pode tudo, é superpoderoso, é um deus na Terra basicamente — e escolhe, por decisão própria, se restringir. Não fazer tudo aquilo que ele pode. Eu achava esse o grande superpoder dele: você poder fazer e escolher não fazer. Ele tem poder para destruir a Terra inteira e se controla./o:p>
Maurício: Você vai perceber que o Superman mostra que ele é cristão. Diante de muita gente queer hoje, a woke quer fazer um Superman bandeirinha que não tem nada a ver. Superman sempre foi cristão, criado por uma família cristã. O que você acha disso, Mafinha?/o:p>
Mafinha: O Superman é o que eles chamam de WASP lá nos Estados Unidos: White Anglo-Saxon Protestant — o branco, conservador, evangélico, cristão. Ele é o espírito dos Estados Unidos: aquele espírito da comunidade, das pessoas autônomas que não dependem do governo; dos agricultores do Kansas, do meio-oeste americano, que tentam evitar que o governo interfira na vida deles; que têm as comunidades deles, resolvem os próprios problemas, montam o celeiro, plantam, fazem a comunidade crescer sem necessidade de um governo central mandando, limitando, fazendo lei. São totalmente autônomos. É o espírito do americano pioneiro: veio na terra para fazer a vida dele e a da comunidade dentro da cultura dele./o:p>
Superman cresce nessa filosofia — tão atacada hoje pelo identitarismo, que trata esse pessoal branco, cristão, protestante, anglo-saxão como causa de todos os males. Cara, essa população é admirável: fez os Estados Unidos serem o que são. Tiveram erros — escravidão, segregação —, tentaram compensar; tentaram tanto que o identitarismo passou do ponto. Brasileiros deveriam olhar o melhor deles./o:p>
Superman: nação poderosa que não quer conquistar todas as outras; deixa os humanos seguirem o caminho e ajuda no necessário. É uma leitura utópica — não existe país “bonzinho” —, mas a ideia é essa. Se os EUA quisessem, dominavam o planeta; não fazem porque não querem. A mesma lógica do Superman./o:p>
A contraparte sem superpoderes é o Capitão América — desconfigurado em dezenas de variantes. Lutam para descaracterizar o patriota porque só enxergam a América como nação falida. Cabe crítica ao American way no personagem: na Guerra Civil dos quadrinhos, contra o registro de super-heróis, ele se rebela em nome da liberdade dos Founding Fathers. Crítica válida. O problema é agredir o leitor com rancor, não fazer mensagem propositiva — só destruir./o:p>
Por isso os quadrinhos não vendem: é cemitério. Crianças não leem; conhecem herói pelo cinema, e a Marvel no cinema também entrou na onda. A geração dos Vingadores vê filme e não compra gibi. Culpa de quem diz amar quadrinhos e virou caricatura — Mark Waid, Bendis e companhia — destruindo o que diziam amar./o:p>
Meu filho tem 10 anos: antes do celular, HQ. Entrevisto muita HQ independente nacional; quando recebo revista, coloco ele para ler. Para não perder o gibi./o:p>
Maurício: Concorda com o sequestro de pauta e com a reescrita de heróis. Reforça Superman como figura de limite moral voluntário — não de cartilha identitária./o:p>
7. Do podcast ao YouTube: viver de internet/o:p>
Maurício: Você pegou o começo da internet nos 80/90. Quando chegou ao ponto da sua vida em que falou: vou viver na internet, levar isso como profissão, uma coisa rentável?/o:p>
Mafinha: Comecei com podcast; depois YouTube. Nunca pensei que seria meio de vida — até hoje é meio assim. Canal com uns 20 mil inscritos: perto da Liga, canalzinho (lá fora tem 100–400 mil). Não me importo. O importante é o conteúdo que você gosta. Eu curtia Omelete, Jovem Nerd; viraram caricatura de lacração — taxação de machista, racista, até nazista por piada. Amo minha mãe, amei namoradas; amo mulher. Não é assim que a vida funciona./o:p>
Olhei ao lado: ninguém fazia conteúdo por medo de cancelamento. Eu já tomava hate no Twitter quase todo dia — hate, não cancelamento pesado de verdade — e fui pro YouTube do meu jeito. Anos interessantes, gente legal, amigos. Mais do que dinheiro: conexão, risada, inscrito que vira amigo. Dinheiro some; amizade fica. Igor, PH — estão juntos há anos./o:p>
PH / Maurício: Confirmam a amizade de longa data pelas redes — tem quem siga o Mafinha desde por volta de 2021 e só depois tenha “achado” o canal no YouTube./o:p>
8. O que ainda escapa da lacração/o:p>
Bancada: Nessa onda de lacração toda, tem algum filme que ainda escapa, que você aprova — digamos de uns três anos para cá?/o:p>
Mafinha: Um exemplo de filme que não foi afetado pela lacração foi o John Wick — e foi um sucesso estrondoso. Acho um belo exemplo de franquia nova, pelos padrões de Hollywood. Pelo menos no cinema não foi afetado; série eu não assisti, então não posso dizer. Quatro filmes. É uma joia no meio de um caminhão de bosta que temos aí./o:p>
9. Novos Titãs, anime e paciência de TDAH/o:p>
Maurício (chat — Igor): Quais são os seus Titãs preferidos dos Novos Titãs?/o:p>
Mafinha: Titans eu nunca li muito. É isso que a DC é foda: consegue fazer um grupo “série C” ficar muito famoso. Teve autores muito bons. Dos Novos Titãs, Mutano é um dos personagens mais queridos; Estelar também. Para mim, o que eu mais gostava é o Asa Noturna. Sensacional como líder. Inclusive acho que, como líder dos Novos Titãs, ele tem um destaque maior que o próprio Batman na Liga. Batman na Liga é líder, mas o líder óbvio é o Superman; todo mundo concorda. Batman também lidera, mas está lá porque é obrigado — e também para espionar a rapaziada, porque é o Batman. O Asa Noturna não: tem uma parada de ter nascido para liderar; define estratégias de guerra. Foi treinado pelo Batman, pegou o perfil, mas é mais coletivo do que o Batman./o:p>
Maurício (chat): E o seu anime preferido?/o:p>
Mafinha: Anime não é a minha praia. Não assisto muito. Assisti alguns. Não tenho muita paciência. Não é de agora: sou da época da Manchete, assisti muito anime, sou fã de Cavaleiros do Zodíaco até hoje — CDZ. Todo mundo. Mas me lembro: quando Cavaleiros era modão, toda a criançada gostava, e eu já não gostava, porque tenho TDAH; sempre fui muito ansioso, e aquela porra demorava para acontecer qualquer coisa. Eu ficava enlouquecido, muito bravo. Até hoje: acho Cavaleiros da hora, mas a demora me irrita profundamente./o:p>
Dragon Ball foi o anime que eu mais assisti — mas daí já mais velho, uns 15, 16, 17. Gostava pra caralho do Dragon Ball, principalmente o clássico, que passava de manhã de sábado no SBT. Eu acordava para assistir. Dragon Ball Z marcou bastante gente dos anos 2000. Mais recente: gostei muito de Death Note./o:p>
Maurício: Você diz que não teve paciência com Cavaleiros, mas a luta Goku e Freeza durou uma pilha de episódios. Como gostou mais de Dragon Ball?/o:p>
Mafinha: Aí eu já era mais velho; já conseguia controlar a ansiedade mais. E também porque tinha internet: eu podia navegar. No Cavaleiros não — só tinha televisão. Ou era Cavaleiros, ou você estava assistindo Malhação./o:p>
Maurício: Reforça o trabalho de desmontar personagem por personagem no canal — e que a paciência muda com a idade./o:p>
10. Vilões: Coringa, Pinguim, Lex, Thanos/o:p>
Maurício (chat — Igor): Seus vilões preferidos da DC e da Marvel?/o:p>
Mafinha: Na DC tem vilões maravilhosos. Até os caricatos — a galeria de vilões do Flash — são maneiro. Vamos no óbvio: Coringa é um puta vilão; talvez um dos melhores da história. Fora esse filme último desgraçado, que eu também não assisti e não vou assistir. Os caras falaram: “você tem canal de cultura pop, tem obrigação”. Falei: não. Não vou./o:p>
Basicamente todos os vilões do Batman são bons — acima da média. Quase todos. A mesma coisa os do Homem-Aranha? Mais ou menos. Os vilões do Homem-Aranha são preguiçosos: Homem-Aranha é homem e aranha, então os vilões têm que ser animais — Rino, Abutre, Doutor Octopus… Acho meio preguiçoso. Nosso Stan Lee era uma puta preguiçoso; eu entendo, também sou. Mas o legal é que são bem desenvolvidos, porque o personagem é muito forte; puxam o vilão./o:p>
No caso do Batman, os vilões têm vida própria. Você vê essa série do Pinguim — eu ainda não comecei; o pessoal está adorando; vou assistir quando terminarem todos os episódios e maratonar. É um personagem que nem era levado a sério e, nos quadrinhos, se desenvolve como aquele chefe mafioso de Gotham. O Pinguim do Danny DeVito em Batman Returns é maneiríssimo — estereotipado, Tim Burton. O de agora mostra família; o Pinguim verdadeiro sempre foi rejeitado pela família — isso deu alteração. Ficou bom./o:p>
Superman tem uma galeria meio ruim às vezes, mas vilão de Superman que eu gosto: Lex Luthor. Brainiac também é bom. Darkseid é um grande vilão — puta vilão. Mas a gente tem que assumir: a Marvel trabalhou o Thanos, que é uma cópia do Darkseid — óbvio para todo mundo —, muito melhor do que a DC trabalhou o Darkseid durante um tempo. Principalmente na saga das Joias do Infinito nos quadrinhos; muito mais bem trabalhado do que o Darkseid com a equação da antivida. Por isso o Thanos sobressaiu no cinema. O Zack também não ajudou muito o Darkseid, mas de qualquer maneira. No cinema o Thanos brilhou — melhor personagem dos Vingadores, disparado. Inclusive o Thanos venceu os Vingadores; eles usaram trapaça, voltaram no tempo. O Thanos da linha do tempo deles ganhou. Ponto./o:p>
Nejar: Dos Coringas, qual você acha que foi mais bem trabalhado — de HQ até cinema?/o:p>
Mafinha: No cinema, o Coringa do Heath Ledger. Cinematograficamente — não falando tanto da ligação com os quadrinhos, porque não tem muita —, beira a perfeição. Toda vez que você assiste O Cavaleiro das Trevas, vê uma camada diferente da atuação, do texto, do roteiro, da arte do cinema. Aquele filme é uma obra-prima do cinema e uma boa porta dos quadrinhos. Diferente do filme do Coringa do Joaquin Phoenix — o primeiro; o segundo nem existe —: é um ótimo filme, mas funcionaria sem ser Coringa. Podia ser o Arthur Fleck, o doidão de Chicago, sei lá. Já O Cavaleiro das Trevas precisa do Batman, precisa do Coringa, precisa da alma desses personagens. É uma lição de cinema. Eu saí maluco do cinema. Não acreditava que os caras tinham feito aquilo./o:p>
Maurício (chat): Você assistiu A Substância?/o:p>
Mafinha: Não. Combinei com a esposa; aí falaram que o filme é “feminista” logo de cara — isso me dá brocha. Pelo mesmo filtro deixei de ver Furiosa e me arrependi: Charlize Theron passa credibilidade no mundo Mad Max; Anya Taylor-Joy, menos — mas sem ter assistido, não vou meter o pau. Martha no Batman v Superman? Melhor parte: as duas mães Martha, dois órfãos — recurso narrativo que faz sentido. E se formatinho está voltando no Brasil, vou comprar: formatinho é top./o:p>
11. A Liga Nerdola: do xingamento ao nome/o:p>
Maurício: Conta para o pessoal do QG: como foi a ideia de vocês se juntarem — “vamos formar a Liga”? De onde veio a vontade? Qual foi a virada de chave?/o:p>
Mafinha: Acho que foi uma parada natural. Eu, o Tony Elvis… A gente começou o canal meio no mesmo tempo. Os nossos canais tinham essa pegada de bater na lacração da cultura pop. A gente se encontrou. Foi isso: um se encontrou com o outro — vamos fazer uma live, vamos marcar. Fizemos live junto e deu certo. Aí veio a brincadeira de que a gente era uma liga — uma Liga Nerdola — porque o xingamento da galera com a gente era que nós éramos nerdolas. A gente percebeu que o nerdola era o nerd de antigamente: antigamente xingavam a gente de nerd; agora que o nerd virou mainstream, xingam de nerdola./o:p>
A gente começou a crescer no sentido de mais gente aparecer; os canais também — menos o meu, claro —, a ter uma certa relevância. Mas, para ser bem sincero: a gente não tem nem um pouco da relevância que a galera acha que a Liga Nerdola tem. A gente é apenas um grupinho de YouTubers que faz vídeo. Não tem nem para chegar perto de um Omelete. A gente vai chegar lá, pode ter certeza — mas não é agora. Por enquanto continua sendo bastante humilde no nosso trabalho, fazendo o que dá para fazer./o:p>
Falaram do Mateus na equipe: eu falei com o Mateus um tempo atrás. A Liga teve muito problema nos últimos tempos; todo mundo acompanhou. A gente teve que segurar um pouco a entrada de novos membros. Vamos voltar com certeza, mas precisa de um tempo para se organizar melhor. O canal ainda não está organizado direito. Tem planejamento de criar uma loja de roupas, coisas da Liga; tem parte comercial que precisa ser colocada em pé antes de trazer mais gente. Mas claro: a hora que o Mateus quiser, a gente faz live junto. Estamos junto./o:p>
Nerdola Comics: A gente está vendo. É uma parada muito grande. Quando for fazer, tem que ser um negócio realmente foda. Não dá para fazer mais ou menos. Tem que ser bem trabalhado. Acho que vai demorar um pouquinho. A gente pensou em fazer, percebeu que tinha muita imaturidade ainda; precisa de um pouco mais de cabeça. Vai chegar o momento certo. Pode ter certeza. E quando for, a gente convida os amigos, os parceiros — todo mundo tem a oportunidade de se encontrar e falar de nerdice./o:p>
Maurício / PH: Reforçam a humildade do relato e o fato de a Liga nascer do encontro de canais com a mesma pegada crítica — não de marketing de gabinete./o:p>
12. Religião, mistura brasileira e o que não se weaponiza/o:p>
Maurício: Eu sou muito atacado pelos lacras porque bato de frente. Ao mesmo tempo, PH e Nejar sabem: eu sou umbandista. Respeito as religiões e acho muito errado a esquerda usar as religiões afro para fazer bandeira. A função verdadeira é outra. O que você acha, Mafinha?/o:p>
Mafinha: Toda religião a gente tem que respeitar. Tem direita maluca de “só católico”. No Brasil, catolicismo tem influência africana e indígena: Dona Lourdes católica que benzer (tradição indígena), Santo Antônio de ponta-cabeça para casar a neta (africana). Essa misturança é beleza da nossa cultura. Sou contra direitista com dor no cu por causa disso — e não deixo a esquerda estragar, porque a esquerda nova também detesta. Na Bahia, mães de santo lavam a escadaria da igreja do Bonfim. No mundo se mata por religião; no Brasil a gente mistura. Dádiva. Tem que ter orgulho./o:p>
Tua religião é tua. Amigo e inscrito respeitam. Meter o bedelho no que o outro acredita não está na Bíblia. A esquerda deturpou tolerância, empatia, respeito — coisas de ser humano, não de partido — e weaponiza isso para emparedar. Esquerda nova usa Jesus como avatar (“Jesus era de esquerda”); do meu ponto de vista cristão, até vejo como pezinho de salvação. Direito de crer, no normal. Satanista que quer fazer mal às pessoas: aí a tolerância tem limite./o:p>
Maurício: Reforça: no quadro esotérico do canal critica satanismo, magia negra, “cursinho de bruxinho”. Respeito à fé de cada um; sem religião como bandeira de partido./o:p>
PH: Reforça o respeito mútuo na bancada e a rejeição ao rótulo fácil./o:p>
13. Trump, Hollywood e anos dourados para quem critica/o:p>
PH: A gente teve uma maravilhosa notícia para o mundo livre. E aí: agora os caras vão dobrar a aposta no cinema e nas séries, ou você acha que vão continuar querendo dar uma segurada?/o:p>
Mafinha: Com o Trump aí os caras não vão aguentar. Tem que fazer: vão vir com tudo. Vocês achavam que estava ruim; não sabem o que vem pela frente. Vai ser um inferno. Você viu que, depois que o Trump estava para se reeleger, resolveram regravar de novo Capitão América? Só para você ver. Óbvio: têm que botar um vilão; o vilão lá já é o Trump, praticamente. Vai ter que piorar o enredo. Vai vir um flop nesse novo Capitão América que nem se fala./o:p>
Eu acho o seguinte: os caras fazem… Meu problema não é com o fato de eles serem esquerdistas. A gente está falando de cultura e arte — arte é de esquerda; 99% dos caras são de esquerda. O problema é que os caras não fazem direito; são maus profissionais. A gente não é burro. A gente leu, conhece, tem referência de cultura pop para caralho, tem um passado genial — de Asimov a Steven Spielberg a Frank Herbert. A gente não aceita a porcaria. Quer doutrinar a galera, falar de esquerdismo, suas palavrinhas? Pode fazer — mas você vai ter que fazer bem. Se você não fizer bem, se quiser só lacrar, só cuspir na nossa cara, a gente vai meter o pau em você. E pode chorar à vontade./o:p>
Para os nossos canais nerds, vai ser uma época dourada do Trump. Já vou avisar: vão ser anos dourados para a gente. Vamos ter muita coisa para reclamar, muita coisa para fazer vídeo. Para nós está tranquilasso./o:p>
Maurício: Concorda: o problema não é a existência de mensagem — é a mediocridade armada de moralismo./o:p>
14. Por que o roteiro empobreceu: Lovecraft, Tolkien, clássicos/o:p>
Maurício: Você contou a Liga. Hoje as pessoas estão fazendo enredos cada vez piores — e estão esquecendo de ver o enredo quando assistem um filme ou leem uma HQ. Isso faz as grandes empresas se darem mal. Você concorda?/o:p>
Mafinha: Claro. Preguiça, ideologia na cabeça, pouca leitura. Roteiro bom exige referência: ler e assistir clássicos. Esquerdistas antigos queriam passar mensagem — e mesmo assim liam clássicos, tinham repertório. Por isso o filme era bom. Cultura sobrevive se alimentando do que outros fizeram./o:p>
O identitarismo criminaliza o passado: “não leio Lovecraft porque era racista”. Sem Lovecraft você não entende horror cósmico — base do terror 80/90. Era racista? Em 1905 quase todo mundo era; no século XIX, misoginia era regra. Sem compreender isso, só se lê autor moderno que também não leu clássico. Roteiro fica pobre, superficial, vazio./o:p>
Tolkien em O Senhor dos Anéis costura mitologia europeia, épicos gregos e vikings, contos. Não é geração espontânea — é costura. Nada de novo sob o sol: nascer, amar, tomar pé na bunda, morrer. Identitarismo se cegou ao passado; sobra a bosta de hoje./o:p>
Maurício: Anéis do Poder está uma lástima./o:p>
Mafinha: Não terminei a segunda temporada. Tolkien escreveu para crianças no tempo das guerras; distorceram. Roteirista que não leu Tolkien nem a tradição inglesa está enganando o público. O problema não é só a ideologia — é o preconceito que impede estudar. Autor medíocre achando que inventa a roda: “vamos escrever melhor que Tolkien”. Nem que nasçam dez vezes./o:p>
Maurício: Endossa: sem repertório clássico, sobra slogan./o:p>
15. Geração TikTok, McLuhan e o Quinto Elemento/o:p>
Maurício: Sem ser Liga: o que você acha dessa geração atual que só prefere toque e Instagram, vídeo de três minutos, em vez de se preocupar em estudar, pegar um bom livro, ajudar os pais em casa?/o:p>
Mafinha: Acho o seguinte: cada geração tem uma parada. Eu não sou de ficar reclamando no “no meu tempo”. A geração está utilizando a internet como tem que ser utilizada para essa geração. Não vou dar de velho. Acho que as pessoas estão se adaptando a novas formas. Tem um cara chamado Marshall McLuhan, canadense, teórico da comunicação — na faculdade de jornalismo a gente estuda ele — e ele fala que o meio é a mensagem. O meio pelo qual você recebe a mensagem também é mensagem. O TikTok, o formato dele de vídeos curtos, já é uma mensagem por si só — para uma nova geração que tem suas deficiências do nosso ponto de vista, claro, mas também tem suas qualidades. Tem muita coisa foda no TikTok. Como tudo na vida, vai depender do que você selecionar. Eu não gosto de criminalizar meio de comunicação. TikTok é uma plataforma; não é má nem boa — apenas uma plataforma. Assim como videogame./o:p>
Eu gosto de TikTok. Só tenho preguiça de gravar os vídeos. Mas estou pegando os vídeos lá do Quinto Elemento, onde eu trabalho, e jogando no TikTok — e estou tendo sucesso: 40 mil, 30 mil visualizações. O Quinto Elemento é uma plataforma de vídeos, um canal com várias pessoas; a gente trata de geoeconomia, geopolítica, cultura. Eu faço um programa em cima do que eles chamam de DEI — diversity, equity and inclusion — que dominou a cultura pop, a lacração e os videogames. Faço com o meu querido amigo Lucas Honorato./o:p>
Muita gente fala que nas produtoras tudo é dinheiro. Concordo que dinheiro é fundamental. Mas acho que não é só dinheiro. Tem um componente ideológico. Eu estava discutindo ontem com um amigo, mais voltado ao jornalismo; ele falou “é só dinheiro”. Eu falei: cara, não é só dinheiro; tem mais coisa. A ideologia é o rock and roll da nossa época. A galera tem a ideologia favorita como a gente tinha a banda favorita, o time de futebol favorito./o:p>
Maurício: Depois a gente troca contato para falar de autismo — tema que o Mafinha também carrega em casa./o:p>
16. Fechamento/o:p>
Maurício: Considerações finais — Mafinha, depois PH e eu. Mafinha, pode começar./o:p>
Mafinha: Cara, eu fiquei muito feliz pelo convite. Meu amigo PH: gosto muito dele, apesar de ser um ceguinho safado — brincadeira de quem se gosta. Estou muito feliz de estar com você, Lord. Quero que você passe teu contato para a gente conversar: tenho muito interesse em conversar sobre essa questão do autismo. O meu menino é autista; seria muito bom eu aprender mais para entender mais o mundinho dele, que eu quero. E cara, é isso aí. Tamo junto. É nós./o:p>
PH: Agradecer a esse gordo aí por ter aparecido. Apesar dele falar isso, a gente gosta dele — brincadeira; ele sabe. Estamos juntos sempre. Muito obrigado, Mafinha, por ter vindo. Foi muito bom o papo. Agradecer ao Maurício, ao pessoal que compareceu. Inscreve no canal; tem live todo dia. Segunda tem o QG Clássico, coisa nostálgica; tem papo do Pinguim da série; quinta temos a Pam Costa; e tem 1822 com o Mafinha. Obrigadão. Boa noite./o:p>
Maurício: Meus queridos anjos iluminados e decaídos: vamos para mais um final de live com esse convidado tão especial. Valeu a pena. O Nejar não conseguiu voltar — deu pau no celular dele. Segue o canal, se inscreve. Amanhã QG Esotérico; sábado QG Cosplay; domingo QG HQ. Sempre com novidade boa. Boa noite. Até mais./o:p>
Maurício / PH: Cultura nerd não se disputa só no trending topic. Disputa-se no gibi que se põe na mão de uma criança antes do celular, no roteiro que ainda lê clássico, e em quem tem coragem de fazer canal “do seu jeito” quando a mesa grande só oferece caricatura — como o Mafinha descreveu./o:p>
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