
Entre discurso e prática: bets, impostos, sigilos e soberania entram no debate eleitoral de 2026
Grasi em eleição 26
A reta final das eleições de 2026 colocou no centro do debate temas que ultrapassam slogans de campanha. Apostas esportivas, tributação, transparência pública, segurança, soberania nacional e liberdade religiosa passaram a ser utilizados por candidatos e partidos tanto para defender suas próprias agendas quanto para questionar adversários.
Nesse ambiente, declarações atuais também são confrontadas com decisões tomadas durante o exercício do poder. É nesse contraste entre discurso e prática que aparecem algumas das principais controvérsias envolvendo o governo Lula, aliados da esquerda e candidatos ligados a esse campo político.
Ao mesmo tempo, em uma disputa eleitoral marcada por forte polarização, é necessário separar críticas políticas legítimas de afirmações que não encontram respaldo nos fatos. Essa distinção torna-se especialmente importante quando temas religiosos e informações que circulam nas redes sociais entram na campanha.
O “prefeito das bets”
O Partido Socialista Brasileiro (PSB) está entre as legendas que passaram a defender maior rigor contra as chamadas bets, com propostas que incluem restrições à publicidade e até a proibição das casas de apostas.
A controvérsia aparece quando esse discurso é comparado às políticas adotadas por João Campos, presidente nacional da legenda e candidato ao governo de Pernambuco. Durante sua passagem pela Prefeitura do Recife, sua administração tomou decisões favoráveis ao setor de apostas, o que passou a ser explorado por adversários políticos como uma contradição entre a atuação administrativa e o discurso adotado pelo partido durante o período eleitoral.
O debate ganhou ainda mais relevância porque o próprio governo Lula mudou radicalmente sua posição em relação ao setor.
Em 25 de setembro de 2026, o presidente editou a Medida Provisória nº 1.394/2026, proibindo a exploração, oferta, intermediação e publicidade das apostas de quota fixa no território nacional. A MP está em vigor, embora ainda precise ser analisada pelo Congresso Nacional para ser convertida definitivamente em lei.
A decisão também atingiu um setor que havia adquirido forte presença no futebol brasileiro por meio de publicidade e patrocínios, ampliando a discussão entre governo, empresas, clubes e torcedores.
A autora desta coluna, botafoguense, observa que a questão ultrapassou o debate político tradicional e passou a envolver diretamente o futebol, inclusive grandes torcidas como Flamengo e Corinthians.
Haddad e a “taxa das blusinhas”
Outra controvérsia eleitoral envolve Fernando Haddad.
Em 1º de agosto de 2024, quando Haddad era ministro da Fazenda, passou a vigorar a cobrança federal de 20% sobre compras internacionais de até US$ 50 realizadas dentro das regras aplicáveis ao comércio eletrônico internacional. A medida ficou popularmente conhecida como “taxa das blusinhas”.
O imposto foi sancionado pelo presidente Lula e tornou-se alvo de críticas nas redes sociais.
Durante a defesa da medida, integrantes e apoiadores do governo também foram acusados por críticos de divulgar informações incorretas ou enganosas sobre quem efetivamente arcaria com a tributação. Independentemente da disputa política sobre a responsabilidade pela criação do imposto, o fato concreto é que a cobrança federal de 20% entrou em vigor em agosto de 2024 durante o atual governo.
A questão tornou-se politicamente relevante porque Haddad, agora candidato ao governo de São Paulo, precisa lidar com decisões tomadas durante sua passagem pelo Ministério da Fazenda enquanto apresenta suas propostas ao eleitorado paulista.
Nesse sentido, a discussão não deveria se limitar a slogans. Cabe comparar aquilo que foi defendido, sancionado e executado quando os atuais candidatos estavam no governo com aquilo que afirmam durante a campanha.
A crítica aos sigilos e a Lei de Acesso à Informação
A transparência pública é outro ponto de confronto.
Durante a campanha presidencial de 2022, Lula prometeu acabar com aquilo que seus apoiadores chamavam de “sigilos de 100 anos” e afirmou que a Lei de Acesso à Informação seria respeitada.
O tema havia sido amplamente utilizado contra o governo de Jair Bolsonaro, principalmente em discussões envolvendo informações pessoais, gastos públicos e o cartão corporativo da Presidência.
Os números posteriores, porém, alimentaram críticas ao atual governo.
Segundo levantamento publicado pela Gazeta do Povo, nos três primeiros anos do terceiro mandato de Lula, a média de negativas fundamentadas em sigilo chegou a 32,2%, contra 27,3% no período equivalente do governo Bolsonaro. Em 2025, foram registrados 10.824 pedidos de acesso à informação indeferidos, enquanto o tempo médio de resposta chegou a 13,9 dias.
Questionado sobre o assunto em julho de 2026, no podcast Inteligência Ltda., Lula afirmou que sigilos deveriam existir apenas para questões de Estado e segurança nacional e argumentou que muitas dessas decisões são tomadas por órgãos governamentais sem chegar diretamente à Presidência.
A explicação, porém, não encerra a discussão política sobre a responsabilidade de um governo pela política de transparência adotada pelos órgãos que compõem sua própria administração.
Em São Paulo, Fernando Haddad também passou a criticar sigilos adotados pela gestão de Tarcísio de Freitas.
“É ilegal colocar um contrato em sigilo”, declarou Haddad.
Segundo o candidato, o sigilo deve ser utilizado para proteger pessoas vulneráveis, menores ou dados pessoais protegidos pela Lei de Acesso à Informação.
A crítica abre espaço para um questionamento político legítimo: como conciliar essa posição com os índices de negativas de acesso registrados enquanto Haddad ainda fazia parte do governo federal?
Esse é um debate que precisa ser enfrentado com dados e com os mesmos critérios, independentemente de qual grupo político esteja no poder.
Soberania nacional: discurso externo e controle interno
A palavra “soberania” também ganhou enorme espaço na eleição.
O governo Lula passou a utilizar o slogan “O Brasil é dos brasileiros” em meio aos conflitos comerciais e diplomáticos com os Estados Unidos.
Em julho de 2025, o governo de Donald Trump anunciou uma tarifa de 50% sobre produtos brasileiros, aprofundando a crise bilateral e fortalecendo o uso da soberania nacional como argumento político pelo governo brasileiro.
Mas soberania não existe apenas nas relações entre países.
Dentro do território brasileiro, o avanço de organizações criminosas também levanta questões sobre a capacidade do Estado de exercer sua autoridade em determinadas regiões.
Segundo o Fórum Brasileiro de Segurança Pública, organizações criminosas estavam presentes em 344 dos 772 municípios da Amazônia Legal em 2025. O número representa 44,6% das cidades da região e um crescimento de 32% em comparação com 2024, quando eram 260 municípios.
No Rio de Janeiro, o Mapa Histórico dos Grupos Armados, elaborado pelo Geni/UFF em parceria com o Instituto Fogo Cruzado, estimou que cerca de 4 milhões de pessoas viviam, em 2024, sob controle ou influência de grupos armados na Região Metropolitana. Isso correspondia a 34,9% da população da região.
Esses números passaram a ser utilizados pela oposição para apresentar outra interpretação do significado de soberania.
Ronaldo Caiado (PSD), por exemplo, afirmou em entrevista ao TMC 360 que o PT teria “entregado” a soberania ao Comando Vermelho e ao PCC, alegando que essas organizações exercem poder sobre partes do território nacional. Trata-se de uma avaliação política do candidato, e não de uma conclusão do levantamento sobre segurança pública.
Flávio Bolsonaro (PL) também adotou essa abordagem ao declarar que sua concepção de soberania estaria relacionada aos brasileiros que vivem em áreas submetidas ao domínio do crime organizado.
Portanto, existem duas dimensões distintas no debate: a soberania do Brasil perante outras nações e a capacidade do Estado brasileiro de exercer plenamente sua autoridade dentro do próprio território.
O custo econômico da reciprocidade
A crise com os Estados Unidos também possui uma dimensão econômica.
Entidades empresariais alertaram que uma eventual retaliação brasileira às tarifas americanas deveria ser cuidadosamente calculada.
A Federação das Indústrias do Estado de Minas Gerais (Fiemg), por exemplo, defendeu cautela na utilização da Lei da Reciprocidade Econômica. Para a entidade, medidas contra importações de máquinas, tecnologias e insumos utilizados pela própria indústria nacional poderiam aumentar custos e reduzir a competitividade brasileira.
Esse aspecto demonstra que soberania e política comercial não precisam ser conceitos opostos, mas decisões tomadas em nome da soberania também possuem consequências econômicas que devem ser avaliadas.
As últimas cartadas da campanha
Na reta final da eleição, novas decisões do governo passaram a ocupar o debate político.
Uma delas foi o reajuste do Bolsa Família.
O governo anunciou uma correção de 15,04%, elevando o valor mínimo do benefício de R$ 600 para R$ 691 a partir de outubro de 2026 — um aumento de aproximadamente R$ 90. Segundo o governo, a medida corresponde à recomposição da inflação acumulada desde março de 2023.
A proximidade entre o reajuste e a eleição naturalmente abriu espaço para críticas e interpretações políticas sobre o momento escolhido para a medida. Entretanto, não é correto afirmar simplesmente que o reajuste seja proibido pela legislação eleitoral: análise jurídica publicada sobre o tema sustenta que a recomposição é legal por se tratar de programa social já existente e de atualização inflacionária.
Outra decisão foi a proibição das bets por medida provisória, anunciada em 25 de setembro, poucos dias antes do primeiro turno. A mudança representa uma reversão significativa em relação ao modelo anteriormente regulamentado pelo próprio governo e passou imediatamente a ser discutida tanto no campo político quanto no jurídico.
Em uma campanha eleitoral, é legítimo que eleitores analisem não apenas o mérito dessas decisões, mas também sua trajetória: quem defendeu determinada política anteriormente, quem mudou de posição e quais justificativas foram apresentadas para essa mudança.
Religião não deve ser transformada em arma eleitoral
Outro episódio exige ainda mais cuidado.
Nos últimos dias, circulou a informação de que Flávio Bolsonaro ou setores ligados aos evangélicos pretenderiam retirar de Nossa Senhora Aparecida o título de Padroeira do Brasil.
Essa informação não se confirmou.
Reportagens publicadas em 25 de setembro classificaram como falsa a alegação de que Flávio Bolsonaro defendesse essa iniciativa. O próprio candidato negou a existência da proposta. O projeto citado na controvérsia havia sido apresentado por outro parlamentar em 2007 e foi arquivado no ano seguinte.
Portanto, transformar esse episódio em uma oposição entre católicos e protestantes com base nessa alegação específica seria reproduzir uma informação falsa.
O Brasil possui uma população majoritariamente católica: segundo os resultados do Censo 2022 divulgados pelo IBGE, 56,7% das pessoas de 10 anos ou mais declararam-se católicas. Isso, entretanto, não reduz os direitos das demais crenças.
A Constituição assegura a liberdade de consciência e de crença e proíbe que União, estados e municípios estabeleçam uma religião oficial ou mantenham relação de dependência com igrejas.
A autora desta coluna é protestante e considera fundamental defender o direito de católicos, evangélicos e integrantes de qualquer outra religião — assim como daqueles que não professam religião alguma — de exercer livremente suas convicções.
Diferenças religiosas não deveriam ser utilizadas para criar artificialmente hostilidade entre brasileiros.
Conclusão: o eleitor deve comparar discurso, histórico e fatos
As eleições de 2026 colocaram bets, impostos, transparência, segurança, soberania e religião dentro de uma mesma disputa política.
Em vários desses assuntos existem mudanças de posição, decisões administrativas anteriores e contradições apontadas por adversários que merecem ser examinadas. Mas também existem acusações que precisam ser verificadas antes de serem repetidas.
No dia 4 de outubro de 2026, os brasileiros irão às urnas no primeiro turno das eleições gerais.
Até lá, o debate público será cada vez mais intenso. A melhor forma de lidar com essa intensidade é comparar declarações com decisões concretas, separar fatos de interpretações políticas e rejeitar informações comprovadamente falsas — especialmente quando elas procuram dividir brasileiros por sua religião.
No fim, cabe a cada eleitor avaliar o histórico, as propostas e as escolhas de quem pretende governar o país.
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