
PH estreando em sua coluna nas quinta, e vindo com o Filme Dark Horse do Bolsnaro
Há um tipo de brasileiro que só discute cinema quando o filme chega com selo de festival, verba pública e um discurso pronto sobre “representatividade”. Diante de Dark Horse, a cinebiografia de Jair Messias Bolsonaro dirigida por Cyrus Nowrasteh a partir de uma história de Mário Frias, a pergunta muda de lugar. Em vez de plano, ritmo ou tragédia, discute-se o pecúlio. Como se a única questão digna de um adulto fosse saber quem pagou a peruca de Jim Caviezel./o:p>
O título, em inglês, significa azarão: aquele que entra na disputa sem favoritismo e, para horror dos apostadores oficiais, ganha. Em 2018, Bolsonaro era isso. Capitão reformado, deputado de discurso seco, tratado pela grande imprensa como peça de museu da caserna, saiu do hospital com uma faca no corpo e entrou no Palácio. O filme não é ata cartorial. É forma. E forma, neste país, virou matéria de polícia quando escapa do panteão autorizado./o:p>
O que a tela pretende contar/o:p>
A sinopse oficial, divulgada pelo Deadline, não disfarça o recorte: um intruso controverso sobe de capitão desconhecido a líder populista num Brasil rachado, enfrenta um plano de assassinato e transforma a luta contra um sistema corrupto numa batalha “pela sobrevivência, pela verdade e pela alma de uma nação”. A trama se concentra na campanha de 2018, na facada de Juiz de Fora, na recuperação hospitalar, nos debates e no casamento com Michelle. Há flashbacks do oficial nos anos 1980, em operações contra o tráfico. No roteiro vazado, surge Aurélio Barba — eco evidente de Adélio Bispo — apresentado como militante que transitou por grupos socialistas e marxistas./o:p>
Caviezel no papel não é detalhe de elenco. O ator que encarnou Cristo para Mel Gibson e depois o agente de Som da Liberdade carrega, no imaginário conservador internacional, o tipo do mártir que o sistema tenta apagar. Nowrasteh já filmou O Apedrejamento de Soraya M. e O Jovem Messias. Eduardo Verástegui aparece na engrenagem produtiva. Quem reduz tudo isso a “cinema de direita americano” aceita, sem discutir, o monopólio contrário: décadas de cinebiografias oficiais em que o herói só pode ser o militante, o sertanista de gabinete ou o pecador redimido pelo partido./o:p>
Olavo de Carvalho, ao tratar do cinema como instrumento de ocupação das consciências, lembrou o ofício de “criar coelhos”: disseminar absurdidades politicamente úteis até que virem espetáculo e senso comum. A observação vale nos dois sentidos. Se um lado fez disso método, o outro não vive no vácuo. Dark Horse entra nessa guerra. Exigir “neutralidade” depois de décadas de projetor alugado é o truque mais velho do ocupante./o:p>
As polêmicas do financiamento/o:p>
Em maio de 2026, o Intercept Brasil publicou áudios e mensagens em que o senador Flávio Bolsonaro cobra de Daniel Vorcaro, então dono do Banco Master, recursos para a produção. Circulou a cifra de 24 milhões de dólares, cerca de 134 milhões de reais à época. O Intercept atribuiu a Vorcaro pagamentos da ordem de 61 milhões de reais entre fevereiro e maio de 2025. Vorcaro foi preso na esteira da Operação Compliance Zero, acusado de chefiar fraude financeira estimada em bilhões. Flávio admitiu ter pedido patrocínio privado e recusou a tese de dinheiro público: “um filho procurando patrocínio privado para um filme privado sobre a história do próprio pai”./o:p>
O filme virou anexo do caso Master. Em setembro, a Polícia Federal cumpriu mandados determinados por Flávio Dino. Documentos da GoUp Entertainment, com sigilo levantado por André Mendonça, detalharam gastos no Brasil da ordem de 20,9 milhões de reais — hotéis acima de 1,4 milhão, inclusive hospedagem atribuída a Caviezel, e o aluguel de uma peruca de dez mil reais, detalhe que a imprensa mastigou com o prazer de quem achou a metáfora pronta. O produtor americano Michael Davis, da Go Up Entertainment LLC, recusou-se a entregar papéis custodiados nos Estados Unidos sem cooperação jurídica formal. A Europa Filmes adiou a estreia brasileira para depois da eleição. Houve exibição em junho no Fraud Fighter Summit, nos EUA./o:p>
Se houver ilícito, isso é matéria de polícia e deve andar com prova, contraditório e juiz imparcial. O que não se sustenta é transformar a existência mesma de um filme biográfico em delito de lesa-hegemonia. Quem passou décadas aplaudindo longas milionários com incentivo estatal e vilão de farda agora descobre um pudor franciscano diante de Caviezel de peruca. Hipocrisia também é gênero. Só não concorre no festival oficial./o:p>
O processo e os juristas que não assinam a ata/o:p>
Paralelo ao filme corre o processo. Bolsonaro foi condenado pela Primeira Turma do STF a 27 anos e três meses na ação penal da chamada trama golpista. A defesa pediu revisão criminal por erro judiciário e sustentou que o caso deveria ter ido ao plenário, não a um colegiado de cinco. O ministro Luiz Fux votou pela absolvição e apontou cerceamento de defesa. A PGR opinou contra a revisão. O relator da revisão é Nunes Marques./o:p>
Ives Gandra da Silva Martins escreveu que o Supremo “reescreve a Constituição” segundo a interpretação pessoal dos ministros, e não segundo a intenção dos constituintes. Surpreendeu-se de o relatório antecipar o resultado e declarar de antemão a impossibilidade de uma lei de anistia — prerrogativa do Congresso, não do relator. Já havia assinalado a mudança de jurisprudência no uso da delação, o papel sem assinatura tratado como documento golpista e o esvaziamento da ampla defesa do artigo 5º./o:p>
O ex-ministro Marco Aurélio Mello foi direto: em 31 anos no tribunal, processo-crime se julgava no plenário, olho no olho. Julgar matéria penal em turma — e, pior, em turma virtual — chamou de descalabro. Lembrou que a competência do STF é de direito estrito e perguntou onde Lula, na qualidade de ex-presidente, foi julgado: na 13ª Vara de Curitiba. “O cidadão não tem jeito, não tem recurso, é pelada única.” Carlos Ayres Britto também entendeu que, se o foro era do Supremo, o foro era do plenário./o:p>
Alessandro Chiarottino, doutor em Direito Constitucional pela USP, e a consultora Katia Magalhães alertaram para o alargamento dos tipos penais: transformar postagem e retórica política em atentado à soberania, aplicar cautelares sem ato de violência comprovado, criminalizar a crítica. Não é preciso canonizar Bolsonaro para admitir o óbvio. Quando o processo vira liturgia e o rito vira espetáculo, o Direito deixa de ser medida e vira arma. É o hábito totalitário em versão de toga: o Estado que não admite rival na narrativa e trata o dissenso como crime contra a cidade./o:p>
O imaginário e a licença para narrar/o:p>
Por que um filme sobre político encosta no nervo? Porque política de massas não vive só de decreto. Vive de imagem. Platão, no livro VII da República, descreveu prisioneiros que tomam sombras na parede da caverna como a única realidade. A indústria cultural moderna é essa caverna com pipoca. Quem controla o projetor controla o que a cidade chama de verdadeiro./o:p>
Olavo descreveu, em O Jardim das Aflições, a ocupação das consciências pela narrativa que se apresenta como ciência quando não passa de mito armado. A inteligência, repetia, começa quando o homem compara o que lhe dizem hoje com o que os grandes disseram sempre. Sem essa comparação, o eleitor toma o trailer por juízo final e o inquérito por metafísica./o:p>
Dark Horse, com todos os pecados de roteiro que um vazamento já permitiu caçoar, tenta devolver ao capitão a forma do herói que sobrevive à faca e enfrenta o palácio invisível. A reação de parte da crítica não é só estética. Se o panteão oficial já consagrou seus santos — o exilado, o desaparecido, o cineasta subsidiado —, um azarão com faixa presidencial no peito é heresia. O filme, mesmo medíocre que venha a ser, disputa o altar. E altar, em regime que não admite outro deus, não se divide./o:p>
Conclusão/o:p>
Dark Horse pode ser filme bom, filme ruim ou filme que o cartaz prometeu e a sala desmentiu. Isso se decide na tela, não no vazamento seletivo nem na metáfora da peruca. As polêmicas de Vorcaro, Master, mandados e adiamento de estreia pertencem à crônica do ano eleitoral e, se houver crime, à polícia. As objeções de Ives Gandra, Marco Aurélio, Fux e outros juristas pertencem a outra prateleira: a da forma do processo, sem a qual República é só cenário./o:p>
O que não se deve entregar é o imaginário. Um povo que só aceita um tipo de herói na tela já escolheu, sem saber, o tipo de réu que terá no banco. A batalha de Dark Horse não é apenas sobre Bolsonaro. É sobre quem tem licença para narrar. Enquanto a caverna estiver alugada, o azarão — no cinema como na urna — continuará sendo o nome que os favoritos dão àquilo que não conseguiram prever./o:p>
Assistir, ler os clássicos e desconfiar do coro. O resto é pipoca./o:p>
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