
A direita no Brasil: origens, transformações e a formação do bolsonarismo
Primeira matéria do Valnei trazendo a pesquisa que ele fez
A história da direita no Brasil não começa com uma única pessoa, partido ou movimento. Trata-se de uma trajetória longa, marcada por transformações políticas, econômicas e sociais que atravessaram o Império, a República, o período Vargas, o regime militar, a redemocratização e as mudanças ocorridas no século XXI.
Este levantamento busca apresentar essa trajetória de forma organizada, permitindo que as novas gerações conheçam as diferentes correntes que, em determinados períodos históricos, foram associadas ao conservadorismo, ao liberalismo, ao nacionalismo e a outras vertentes políticas identificadas com a direita.
Antes de analisar especificamente o Brasil, porém, é importante compreender de onde surgiram os próprios conceitos de “direita” e “esquerda”.
De onde surgiram os termos “direita” e “esquerda”?
Os termos “direita” e “esquerda” nasceram durante a Revolução Francesa, no final do século XVIII. A origem está relacionada à disposição dos representantes políticos dentro da Assembleia francesa.
Em 1789, enquanto a França atravessava uma profunda crise política, representantes com posições diferentes começaram a se agrupar de acordo com suas afinidades. De maneira simplificada, aqueles mais ligados à defesa da monarquia, da religião e da ordem tradicional se concentravam à direita da presidência da Assembleia. Já os grupos favoráveis a mudanças políticas mais profundas e à redução dos privilégios tradicionais se posicionavam à esquerda.
Dessa maneira, algo inicialmente relacionado à posição física ocupada pelos representantes passou gradualmente a funcionar como uma classificação política. A associação histórica entre os termos e a disposição dos representantes durante a Revolução Francesa é amplamente registrada pela historiografia.
Durante o século XIX, essa divisão se espalhou para outros países e adquiriu novos significados.
A direita passou geralmente a ser associada à preservação da ordem social, à tradição, à propriedade privada e, posteriormente, a diferentes formas de conservadorismo e liberalismo econômico. A esquerda passou a reunir movimentos voltados à ampliação da igualdade política, social e econômica e às reformas das estruturas existentes. Com a industrialização, correntes como socialismo, social-democracia e comunismo também passaram a integrar esse campo político.
Entretanto, esses conceitos nunca permaneceram completamente fixos. O significado de “direita” e “esquerda” depende do país, do período histórico e das circunstâncias políticas.
O próprio liberalismo demonstra essa transformação. Em determinados momentos da história europeia, ideias liberais tiveram caráter revolucionário diante das monarquias absolutistas. Posteriormente, determinadas vertentes do liberalismo econômico passaram a ser classificadas principalmente como de centro-direita ou direita.
Por isso, quando alguém utiliza atualmente as expressões “direita” ou “esquerda”, está empregando conceitos políticos cuja origem remonta a uma divisão física ocorrida há mais de dois séculos.
As primeiras raízes da direita brasileira: o Império
A história da direita brasileira precisa ser analisada com cautela. Durante o século XIX, não existiam partidos organizados oficialmente sob as denominações de “direita” e “esquerda” da maneira como esses conceitos são utilizados atualmente.
Depois da Independência, em 1822, o Brasil enfrentou diversas disputas relacionadas à organização do novo Estado.
No Primeiro Reinado, entre 1822 e 1831, D. Pedro I e os setores monarquistas estavam ligados à defesa da monarquia constitucional, da autoridade imperial e da centralização do Estado.
Durante o Período Regencial, de 1831 a 1840, intensificaram-se as disputas entre grupos favoráveis a maior centralização política e aqueles que defendiam diferentes graus de autonomia provincial.
Foi nesse ambiente que se consolidaram as primeiras grandes correntes conservadoras do Brasil imperial.
A partir da década de 1830, o Partido Conservador tornou-se uma das principais forças políticas do Império, ao lado do Partido Liberal. Seus integrantes defendiam, entre outras questões, maior autoridade do governo central, estabilidade política e preservação da ordem institucional.
Entre os nomes associados à formação dessa tradição conservadora aparecem Bernardo Pereira de Vasconcelos, Paulino José Soares de Sousa — o Visconde do Uruguai —, Joaquim José Rodrigues Torres — o Visconde de Itaboraí —, Eusébio de Queirós e, posteriormente, o Duque de Caxias.
Parte desse grupo tornou-se historicamente conhecida como os saquaremas.
Os saquaremas estiveram particularmente associados à defesa de maior centralização do poder, estabilidade institucional e fortalecimento da autoridade do governo imperial. Documentação histórica da Câmara dos Deputados registra Bernardo Pereira de Vasconcelos e o Visconde do Uruguai entre as figuras de destaque dessa tradição política.
Por isso, quando se procura pelas raízes históricas do conservadorismo brasileiro, o Partido Conservador do Império aparece como uma referência importante.
Isso não significa, entretanto, que exista uma ligação política direta e automática entre os conservadores do século XIX e os movimentos de direita do século XXI.
O conservadorismo imperial era igual à direita atual?
Não.
Aplicar diretamente as categorias políticas contemporâneas ao século XIX pode produzir distorções.
Liberais e conservadores do Império atuavam dentro de uma realidade política, econômica e institucional muito diferente daquela existente atualmente. Determinadas posições adotadas por esses grupos poderiam inclusive parecer contraditórias quando observadas pelos padrões políticos do século XXI.
O Partido Conservador, por exemplo, esteve envolvido em governos que participaram do processo gradual de abolição da escravidão, incluindo medidas como a Lei do Ventre Livre, de 1871, e a Lei dos Sexagenários, de 1885. O processo abolicionista, evidentemente, envolveu diferentes movimentos, grupos políticos, governos e pressões sociais.
Por isso, é mais preciso afirmar que parte das raízes do conservadorismo político brasileiro pode ser encontrada no Partido Conservador do Império do que afirmar que a direita brasileira atual seja simplesmente uma continuação daquele partido.
Essa diferença histórica é fundamental.
Direita, conservadorismo, liberalismo, autoritarismo e extrema-direita podem se relacionar em determinados contextos, mas não são conceitos necessariamente equivalentes.
A Primeira República e os republicanos conservadores
Com a Proclamação da República, em 1889, todo o sistema político brasileiro passou por uma reorganização.
Durante a chamada Primeira República, entre 1889 e 1930, ganharam destaque partidos republicanos estaduais e grupos políticos ligados principalmente às elites regionais.
São Paulo e Minas Gerais exerceram forte influência durante parte significativa desse período. Ainda assim, o sistema partidário da Primeira República não pode ser simplesmente enquadrado na divisão contemporânea entre esquerda e direita.
Uma experiência importante foi o Partido Republicano Conservador (PRC), criado em 1910.
Pinheiro Machado tornou-se uma das figuras centrais da articulação política do partido. Quintino Bocaiúva também participou diretamente de sua fundação e da direção inicial da organização. O PRC defendia pontos como a Constituição de 1891, a autonomia dos estados, estabilidade cambial e monetária e modernização das instituições militares.
A experiência demonstrava a tentativa de organizar uma força conservadora de dimensão nacional dentro da República.
A Era Vargas e o surgimento de novas correntes
Entre 1930 e 1945, a política brasileira sofreu outra transformação profunda.
Nesse período surgiram diferentes movimentos nacionalistas, conservadores e autoritários.
Entre eles estava a Ação Integralista Brasileira (AIB), fundada por Plínio Salgado em 1932. O movimento tornou-se uma das principais manifestações da direita radical brasileira da época e defendia ideias como nacionalismo, corporativismo e forte oposição ao comunismo.
A década de 1930, portanto, introduziu novas formas de organização política que já eram bastante diferentes do conservadorismo existente durante o período imperial.
Isso demonstra novamente por que não existe uma linha histórica simples que possa ligar diretamente todas as diferentes direitas brasileiras.
A direita na República de 1946
Com o fim do Estado Novo e a reorganização democrática a partir de 1945, o sistema político brasileiro passou a contar com correntes conservadoras, liberais, trabalhistas, socialistas e comunistas mais claramente estruturadas.
Nesse cenário, a União Democrática Nacional (UDN) reuniu setores liberais e conservadores.
Carlos Lacerda tornou-se uma das figuras mais conhecidas desse campo político, destacando-se pela oposição a Getúlio Vargas e posteriormente ao trabalhismo.
Entre 1945 e 1964, diferentes organizações ocuparam posições que poderiam ser classificadas como direita, centro-direita ou centro. A própria complexidade dos partidos da época impede que todos sejam colocados dentro de uma única corrente ideológica.
O regime militar e a ARENA
Em 1964 começou um novo período da história brasileira, que se estenderia até 1985.
Durante o regime militar, o sistema partidário foi reorganizado. Após a extinção dos partidos existentes, a Aliança Renovadora Nacional (ARENA) tornou-se a principal organização partidária de apoio ao governo, enquanto o Movimento Democrático Brasileiro (MDB) funcionava como oposição permitida.
Registros da Câmara dos Deputados descrevem a ARENA como partido de apoio ao governo naquele sistema bipartidário.
Nesse período, setores civis e militares favoráveis ao regime integraram um campo político geralmente associado à direita.
Entretanto, novamente é necessário evitar simplificações. A direita brasileira não se limitava exclusivamente aos militares, assim como diferentes grupos conservadores ou liberais apresentavam divergências entre si.
A redemocratização e a reorganização da direita
Com o fim do regime militar e o início da Nova República, em 1985, as forças políticas brasileiras passaram por uma nova reorganização.
Partidos como PFL e setores provenientes do PDS ocuparam espaços relevantes dentro da direita e da centro-direita.
Posteriormente, diferentes partidos reuniriam segmentos liberais na economia, conservadores nos costumes, nacionalistas, democratas-cristãos e outras correntes.
Durante os governos de Fernando Henrique Cardoso, entre 1995 e 2002, PSDB e PFL estiveram associados a políticas de estabilização econômica, reformas do Estado e diferentes graus de liberalização econômica.
Entre 2003 e 2013, durante os governos do Partido dos Trabalhadores, PSDB, DEM e outras forças passaram a ocupar grande parte do espaço partidário de oposição identificado com o centro e a centro-direita.
Mas uma mudança mais profunda começaria a aparecer na década seguinte.
2013 e a ascensão da chamada Nova Direita
As manifestações de junho de 2013 representam um ponto importante para compreender as transformações políticas ocorridas no Brasil na década seguinte.
Inicialmente, os protestos estavam fortemente ligados ao preço e à qualidade do transporte público. Rapidamente, porém, passaram a incorporar inúmeras outras reivindicações.
As manifestações reuniram uma composição bastante heterogênea. Participavam grupos de esquerda, liberais, conservadores e pessoas sem identificação partidária definida.
Nos anos seguintes, pesquisadores observaram maior presença pública de novas organizações e formadores de opinião ligados à direita, especialmente por meio das redes sociais. Estudos acadêmicos relacionam as manifestações de 2013 e o período posterior ao crescimento da chamada “nova direita” brasileira, embora existam diferentes interpretações acadêmicas sobre as causas e o significado político desse processo.
Grupos como o Movimento Brasil Livre (MBL) e o Vem Pra Rua passaram a ganhar visibilidade.
A internet também se tornou uma arena cada vez mais importante para a mobilização política.
De 2014 a 2016: crise política, Lava Jato e antipetismo
Entre 2014 e 2016, a crise econômica, os escândalos de corrupção, a Operação Lava Jato, as dificuldades enfrentadas pelo governo Dilma Rousseff e o crescimento do antipetismo contribuíram para ampliar a mobilização de setores da oposição e da direita.
Movimentos como MBL, Vem Pra Rua e Revoltados Online alcançaram grande exposição durante as manifestações de 2015 e 2016.
O impeachment de Dilma Rousseff, concluído em 2016, também produziu uma reorganização significativa do campo político brasileiro.
É importante, entretanto, não tratar todos esses movimentos como sinônimos de bolsonarismo.
Existiam diferenças importantes entre liberais, conservadores, grupos antipetistas, movimentos de rua e os apoiadores de Jair Bolsonaro.
Essas correntes posteriormente se aproximariam em determinados momentos, mas não eram originalmente um movimento único.
Jair Bolsonaro antes do bolsonarismo
Jair Bolsonaro já atuava na política nacional muito antes da eleição presidencial de 2018.
Deputado federal desde 1991, ficou conhecido ao longo de sua trajetória por posições conservadoras, nacionalistas, pró-militares e fortemente anticomunistas.
Durante grande parte desse período, porém, sua influência política nacional permanecia mais concentrada em determinados segmentos.
Foi principalmente a partir da década de 2010 que sua projeção cresceu significativamente.
Entre 2016 e 2018, Bolsonaro conseguiu se transformar em um ponto de convergência para grupos que anteriormente atuavam de maneira relativamente separada.
Entre eles estavam conservadores nos costumes, setores religiosos — especialmente evangélicos —, grupos antipetistas, defensores de posições favoráveis às armas, integrantes ou apoiadores das Forças Armadas e das forças de segurança, liberais econômicos, nacionalistas, anticomunistas e influenciadores digitais.
A utilização das redes sociais foi particularmente importante nesse processo. Pesquisas acadêmicas sobre a campanha de 2018 identificaram forte atuação política nas plataformas digitais, incluindo WhatsApp, Facebook, YouTube e outras redes.
Dessa convergência começaria a se consolidar aquilo que passou a ser chamado de bolsonarismo.
Qual foi a influência de Olavo de Carvalho?
Outro personagem frequentemente citado no processo de formação intelectual de parte da chamada nova direita brasileira é Olavo de Carvalho.
Muito antes da ascensão eleitoral de Bolsonaro, Olavo já utilizava a internet para divulgar suas ideias e críticas ao comunismo, ao marxismo, à esquerda acadêmica e ao fenômeno que denominava “globalismo”.
Seu trabalho ganhou grande repercussão entre determinados públicos conservadores, especialmente por meio de textos, vídeos, cursos e redes sociais.
Estudos acadêmicos sobre a direita brasileira nas redes apontam sua influência sobre parte da geração de ativistas, intelectuais e lideranças que ganharam projeção durante a década de 2010.
Parte de seus seguidores posteriormente passou a ocupar posições de destaque no ambiente político relacionado ao governo Bolsonaro.
Entretanto, seria incorreto afirmar que Olavo de Carvalho criou sozinho o bolsonarismo ou que Jair Bolsonaro foi simplesmente um representante de suas ideias.
O fenômeno envolveu a combinação de diferentes grupos, interesses, tradições políticas e movimentos sociais.
2018 e a consolidação eleitoral do bolsonarismo
Durante a pré-campanha presidencial de 2017 e principalmente durante a eleição de 2018, a expressão “bolsonarismo” passou a aparecer com maior frequência no debate público.
Bolsonaro conseguiu transformar a rede política e social construída nos anos anteriores em uma força eleitoral de dimensão nacional.
No segundo turno da eleição presidencial de 2018, foi eleito presidente da República. O texto original registra o resultado de forma arredondada como 55% dos votos válidos; a totalização oficial do Tribunal Superior Eleitoral registrou 57.797.847 votos, correspondentes a 55,13% dos votos válidos.
A partir daquele momento, o bolsonarismo deixou de ser apenas uma mobilização em torno de uma candidatura e passou a ocupar um espaço próprio dentro da política brasileira.
Como o bolsonarismo se diferencia da direita tradicional?
O bolsonarismo não é exatamente igual à direita brasileira tradicional.
Ele incorporou elementos provenientes de diferentes vertentes: conservadorismo nos costumes, liberalismo econômico, conservadorismo religioso, nacionalismo, forte aproximação com setores militares e das forças de segurança, anticomunismo e uma política fortemente organizada em torno da liderança de Jair Bolsonaro.
Essa combinação ajuda a explicar por que o movimento conseguiu reunir grupos que anteriormente não necessariamente atuavam juntos.
Ao mesmo tempo, as diferenças internas permaneceram.
Liberais econômicos, conservadores religiosos, nacionalistas, movimentos políticos e setores ligados às forças de segurança nem sempre apresentam as mesmas propostas ou prioridades.
Por isso, assim como ocorreu anteriormente na história brasileira, utilizar simplesmente a palavra “direita” não significa falar de um grupo político completamente homogêneo.
Uma linha histórica da direita brasileira
Observada de maneira ampla, a trajetória pode ser dividida em diferentes fases.
Entre 1822 e 1831, a organização política do Império esteve fortemente vinculada a D. Pedro I, à monarquia constitucional e à construção de um Estado centralizado.
Entre 1831 e 1840, durante o Período Regencial, aprofundaram-se os debates entre centralização e descentralização.
A partir de aproximadamente 1837 e durante o restante do Império, o Partido Conservador e os saquaremas tornaram-se importantes forças políticas, com nomes como Bernardo Pereira de Vasconcelos, Visconde do Uruguai e Visconde de Itaboraí.
Na Primeira República, entre 1889 e 1930, predominaram partidos republicanos estaduais e elites regionais. Entre 1910 e 1915, o Partido Republicano Conservador representou uma tentativa de organização conservadora nacional.
Durante a Era Vargas, entre 1930 e 1945, surgiram novas correntes conservadoras, nacionalistas e autoritárias, incluindo a Ação Integralista Brasileira de Plínio Salgado.
Entre 1945 e 1964, UDN, setores do PSD e diferentes organizações liberais e conservadoras participaram do cenário político.
Entre 1964 e 1985, a ARENA tornou-se a principal organização partidária de sustentação do regime militar.
Com a redemocratização, PFL, setores do PDS e posteriormente diferentes partidos passaram a representar correntes de direita e centro-direita.
Entre 1994 e 2002, o debate político também passou pelas reformas econômicas, estabilização e diferentes formas de liberalização implementadas durante os governos de Fernando Henrique Cardoso.
Entre 2003 e 2013, partidos como PSDB e DEM ocuparam posições importantes na oposição aos governos do PT.
A partir de 2013, movimentos liberais e conservadores, manifestações de rua, redes sociais e a crise política contribuíram para o fortalecimento da chamada Nova Direita.
Entre 2016 e 2018, diferentes grupos convergiram em torno da candidatura de Jair Bolsonaro.
Com sua vitória presidencial em 2018, o bolsonarismo consolidou-se como um movimento político de alcance nacional.
No período de 2022 a 2026 abordado neste levantamento, o campo da direita brasileira continua sendo apresentado como composto por diferentes correntes, entre elas bolsonaristas, conservadores religiosos, liberais econômicos, nacional-conservadores e setores de centro-direita.
Não existe uma única direita brasileira
Um dos principais cuidados necessários ao estudar esse tema é evitar a ideia de que exista uma linha política direta ligando o Partido Conservador de 1837 ao bolsonarismo do século XXI.
Essa linha simplesmente não é linear.
Monarquistas, saquaremas, republicanos conservadores, integralistas, udenistas, militares, liberais econômicos, conservadores religiosos e bolsonaristas surgiram em contextos históricos diferentes e apresentam divergências importantes entre si. O próprio material que fundamenta este levantamento destaca que conservadorismo, liberalismo, autoritarismo, direita e extrema-direita são categorias que podem se relacionar em determinados momentos, mas não devem ser tratadas automaticamente como sinônimos.
Se a pergunta for “quem fundou a direita brasileira?”, portanto, a resposta dependerá do significado atribuído à palavra “direita”.
Quando se fala das raízes históricas do conservadorismo brasileiro, Bernardo Pereira de Vasconcelos e o núcleo saquarema do Império aparecem entre os primeiros nomes importantes.
Quando o assunto é a direita brasileira moderna, entram outros personagens, partidos e acontecimentos: Carlos Lacerda, UDN, regime militar, liberalismo econômico, redemocratização e, posteriormente, a chamada Nova Direita.
E, quando o foco é especificamente o bolsonarismo, é necessário observar principalmente a combinação ocorrida durante a década de 2010 entre mobilizações políticas, antipetismo, conservadorismo, redes sociais, grupos religiosos, setores liberais, nacionalistas, militares e de segurança pública e a liderança de Jair Bolsonaro.
Conclusão
A história da direita brasileira é muito mais extensa e complexa do que qualquer movimento político contemporâneo.
Suas raízes podem ser encontradas nas disputas ocorridas desde o Império, especialmente na formação do Partido Conservador e dos saquaremas. Depois disso, novas correntes apareceram durante a Primeira República, a Era Vargas, a República de 1946, o regime militar e a redemocratização.
No século XXI, principalmente a partir das manifestações de 2013, uma nova configuração política ganhou espaço. Movimentos liberais e conservadores, redes sociais, antipetismo e a crise política contribuíram para reorganizar esse campo.
Entre 2016 e 2018, Jair Bolsonaro tornou-se um dos principais pontos de convergência de diferentes setores da direita. Sua eleição presidencial consolidou o bolsonarismo como um movimento político próprio, ainda que composto por grupos com ideias e prioridades distintas.
Compreender essa trajetória exige justamente reconhecer essas diferenças. A direita brasileira não nasceu em 2018, assim como a direita existente atualmente não pode ser considerada uma reprodução direta do conservadorismo do século XIX.
Estudar sua história significa observar continuidades, rupturas, alianças e conflitos que atravessaram mais de dois séculos da vida política brasileira.
Somente a partir dessa perspectiva histórica é possível compreender como diferentes ideias, partidos e movimentos chegaram ao cenário político contemporâneo — e por que aquilo que chamamos de “direita brasileira” nunca representou uma única corrente política.
Pesquisa: Valnei Andrade
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